Dicas para ter uma atitude terapêutica

No livro que li "Cartas a um jovem terapeuta", o seu autor Contardo Calligaris, faz referência a um conjunto de características que ele procura naqueles que desejam tornar-se psicoterapeutas. Pensei que ,independentemente desse desejo profissional, talvez o conhecimento desses traços seja importante para que todos possamos de alguma forma desenvolver uma atitude terapêutica, uma atitude de cuidado em relação ao próximo no sentido de uma vida relacional mais saudável e positiva. De facto, não precisamos de ser terapeutas para desenvolver uma atitude terapêutica, da mesma forma que não precisamos de ser especialistas em mecânica automóvel para saber quando é necessário mudar o óleo do carro.


Esta é a segunda dica do autor acompanhada de uma reflexão minha sobre as suas palavras.


2) "Uma extrema curiosidade pela variedade da experiência humana com o mínimo possível de preconceito."

É normal termos crenças e convicções, mas se elas nos levarem a noções muito rígidas sobre o que é bom e o que é mau, dividindo o mundo em duas cores, em duas faces, em luz e sombra, partindo a realidade em branco e preto, então essas crenças e convicções de nada nos servem para desenvolver uma atitude terapêutica. Acabaríamos assim a organizar o mundo em categorias, em gavetas com meias cujas cores não se misturam, ou seja, onde as pessoas de religiões diferentes não se misturam, de orientações sexuais diferentes não se misturam, de convicções políticas diferentes não se misturam sob o risco de serem mencionados de forma depreciativa e preconceituosa na própria linguagem: "os católicos", "os homossexuais", "os muçulmanos", "os de direita", "os de esquerda", "os ciganos", "os pobres", "os riscos"...

Por exemplo, a nossa fé e convicção religiosa só vale no desenvolvimento de uma atitude terapêutica se não for usada para aprovar ou desaprovar o comportamentos humano, para dizer o que é admirável ou o que é condenável de forma preconceituosa. 

A linguagem é muito poderosa, organiza o mundo à nossa volta e cabe a nós decidir como é que queremos fazê-lo, com que palavras, com que tom, com que emoções queremos colori-la para dialogar com o próximo. Um discurso muito partido "tudo ou nada", "branco e preto", "extrema direita ou extrema esquerda" afasta as pessoas para pólos levando-as a competir pela razão, cria preconceito e não permite que elas se cheguem ao meio campo para conversar sobre diferentes pontos de vista, para começar a jogar e a debater a partir daí, de um mesmo lugar. 

O discurso preconceituoso é o discurso de uma única liberdade que ofusca as outras todas, que nos torna, a pouco e pouco, reféns do outro.

O controlo dos nossos julgamentos de valor é fundamental e uma atitude menos preconceituosa só nos serve para vivermos melhor e para desenvolvermos relações mais positivas. Se, contudo, algum comportamento humano mexe connosco, então sejamos curiosos sobre esse comportamento, em vez de partimos logo para o seu julgamento. 

Certamente é mais fácil, menos trabalhoso, deixarmos que as nossas crenças e preconceitos se cheguem à frente para fazer uma leitura da realidade, do que arregaçar as mangas para desenvolver uma posição informada e crítica sobre o assunto. 

É comum dizer-se que a humanidade precisa de líderes, precisa que alguém lhe diga o que fazer, como arrumar a casa. O problema é quando os líderes que elegemos são aqueles que nos obrigam a fechar as portas todas de nossa casa impedindo que as divisões se comuniquem, são lideres que erguem fronteiras e nos afastam dos nossos irmãos. 

O que parece inicialmente vantajoso nesses líderes é que nem precisamos de pensar ou de fazer nada porque eles fazem e pensam tudo por nós. E assim lá somos embalados como bebés que só precisam de comer, de dormir, de estar quentinhos e sossegadinhos, até ao dia em que o bebé vai começar a caminhar por si e a descobrir o mundo por si e não vai gostar que lhe cortem as pernas e nem os horizontes.



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