Dicas para ter atitude terapêutica na vida.

Makeup: Tinoca,  Styling: Nelson Vieira, Cabelos: Edgar Venâncio, Óculo: Ergovisão

Contardo Calligaris é um escritor, psicanalista e dramaturgo italiano há muitos anos radicado no Brasil. Alguns conhecem-no também como o criador e diretor geral da série brasileira da HBO, intitulada Psi. 

Estou a ler o seu livro "Cartas a um jovem terapeuta" e as primeiras páginas fizeram-me lembrar uma frase que me toucou e que ouvi no decorrer do meu estágio académico. A nossa orientadora disse que não precisamos de ser terapeutas, psicólogos ou psiquiatras, para desenvolver uma atitude terapêutica na vida, nas nossas relação com os outros. 

Nunca mais esqueci esta frase: "não precisas de ser terapeuta para ter uma atitude terapêutica." Julgo que isto vale para ouras áreas, onde apesar de não sermos especialistas, nada nos impede de desenvolver as competências mínimas que nos facilitem o quotidiano. Por exemplo, não preciso de ser um mecânico para saber trocar um pneu ou para saber quando trocar o óleo do carro.


No livro "Cartas a um jovem terapeuta", o autor faz referência a um conjunto de características que ele procura naqueles que desejam tornar-se psicoterapeutas. Pensei que independentemente desse desejo profissional, talvez o conhecimento desses traços seja importante para que todos possamos de alguma forma desenvolver uma atitude terapêutica, uma atitude de cuidado em relação ao próximo no sentido de uma vida relacional mais saudável e positiva.

Servem os seguintes posts para vos apresentar dicas para desenvolver um atitude terapêutica na vida inspirados, para já, no livro de Contado Caligaris. Digo "para já" porque é possível que outros autores atravessem as minhas leituras e me impulsionem a partilhar outras dicas. Posto isto, comecemos pela primeira dica de Calligaris seguida de uma reflexão minha sobre as palavras do autor.

1) "Um gosto pronunciado pela palavra e um carinho espontâneo pelas pessoas, por muito diferentes que sejam de você."

Desenvolver uma atitude terapêutica passa por desenvolvermos este gosto pelas palavras, respeitando e aceitando como os outros à nossa volta se expressam e se apropriam delas. 

Escutar de forma atenta e genuína os outros parece algo simples, mas não é. Muitas vezes estamos mais preparados para responder do que para ouvir. Estamos mais preocupados com a nossa resposta, com a genialidade dos nossos argumentos, com o nosso protagonismo numa discussão, do que em desfrutar de um diálogo, aprendendo e ouvindo com atenção e sem julgamento quem está do outro lado. Tendemos a valorizar, a admirar quem tem o dom da palavra, mas saber ouvir é uma arte, saber escutar as palavras e o silêncio do outros é uma competência poderosa.

Quantas dores, dúvidas e angústias nos assaltam e que nunca partilhamos com ninguém? São coisas só nossas, íntimas e que tememos partilhar pelo medo do julgamento e da crítica alheia, pela falta de confiança no outro ou porque, simplesmente, nos parece que os outros estão muito ocupados com as suas coisas. Tememos sobrecarregá-los com as nossas vidas e inquietações, tememos que descubram que afinal a nossa vida não vai lá muito bem, tememos que nos chamem instáveis, depressivos, egoístas, ingratos por não aproveitarmos as nossas conquistas: trabalho, família, filhos, posição social, bens materiais...

As palavras tem um poder transformador, uma pessoa que nos escute, que generosamente nos dê tempo sem crítica e julgamento, mas com aceitação, pode ajudar-nos a aliviar as nossas vozes internas, a dar sentido aos diálogos que temos dentro de nós mesmos. 

Há uns dias, enquanto falava com uma amiga, ela disse-me algo que eu estou farta de dizer a mim mesma silenciosamente. Mas ouvir o meu pensamento através dela, da voz dela, passou-me uma mensagem de ser compreendida e de a minha necessidade ser reconhecida e valorizada, e não um pensamento só meu que às vezes julgava um pouco tolo, um capricho, uma mania mantida no silêncio.

Às vezes, não fazemos a mínima ideia sobre o que o outro está a sentir e nem sabemos como ajudar ou o que dizer, às vezes não temos mesmo tempo e disponibilidade emocional, às vezes, também tentamos procurar no catálogo da nossa vida uma experiência semelhante que nos aproxime do próximo, que nos ajude a compreendê-lo, mas como cada experiência é única e sentida de uma forma muito própria, muito individual, não será de todo desapropriado dizer: "olha eu, de facto, não imagino o que estás a passar ou a sentir, não sei... mas estou aqui contigo, para te ouvir se precisares de falar." 

De facto, não temos de ser telepáticos e de adivinhar o que outro está a sentir, falando por ele, pondo palavras na sua boca, inspirados na nossa própria experiência ou na nossa imaginação sobre o assunto; também não temos de ser conselheiros porque o que funcionou para nós pode não funcionar para o outro, além de que os conselhos podem ser sentidos como intrusivos ou como um julgamento e podem desencorajar quem nos procura a ser activo na procura das suas próprias respostas, dificultando que sejam contadores da sua própria história.

Escutar genuinamente alguém é sair de nós próprios para nos colocarmos no lugar do outro, é sermos generosos, disponíveis e empáticos e renunciarmos à disputa pela importância e protagonismo na conversa, afastando a ideia de que possuímos o conhecimento sobre a verdade das coisas, sobre o que é certo e o que é errado.

Fica então a dica para desenvolver uma atitude terapêutica: saber escutar, ter um carinho espontâneo pelas pessoas, gostar de palavras, de falá-las, mas também de escutá-las, de lê-las, cultivar a paciência e a disponibilidade por muito diferente e estranha que a experiência do outro possa parecer, e recebê-la, aguentando a incerteza de não fazer a mínima ideia sobre o que se passa no mundo do outro.

Amanhã há mais dicas! Um abraço!


Make-up: Tinoca,  Styling: Nelson Vieira, Cabelos: Edgar Venâncio, Óculo: Ergovisão



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