O consultório dele


Um amigo da Joana ofereceu-lhe o consultório dele, nas suas horas vagas, para que ela pudesse atender os seus primeiros pacientes, auxiliando-a neste início de carreira. Apesar do entusiasmo pela oportunidade ficámos reticentes. Perguntei-lhe como era o consultório e ela disse-me que era um espaço "muito dele", ou seja, está decorado com a mobília, com o papel de parede, com os tapetes, com os sofás e as plantas que ele escolheu; talvez se localize num determinado bairro, prédio e andar que ele preferiu, imagino que tenha alguns diplomas pendurados na parede e fantasio sobre os livros que terá na estante, sobre a iluminação e sobre a cor das almofadas. 

Aquele espaço "muito dele" terá a assinatura dele, estará personalizado à sua maneira, terá a marca da sua subjetividade, do que lhe próprio e único e, de alguma forma, é revelador daquele homem, da sua pessoa, muito para além das suas teorias e da sua prática terapêutica. 

Estava aqui a pensar... o mais provável é que, no tradicional contexto clínico e hospitalar, o espaço seja neutro e partilhado por especialistas de várias áreas, mas quando a pessoa se apropria de um espaço e o torna "seu", o consequente aluguer ou empréstimo generoso é algo que deverá ser muito refletido, tendo em conta os possíveis efeitos na aliança terapêutica.

Assim como o artista se serve da usa subjetividade, partindo de si mesmo para criar a sua obra, o terapeuta faz o mesmo: é a partir dele que o processo começa. É a partir da forma como ele se posiciona, dos temas que lhe apaixonam e sobre os quais se debruça para escrever, para falar, para se aprofundar, é a partir da sua forma genuína de estar que se criam (ou não) pontes de identificação com o outro.

Balint, um psicanalista húngaro, deu importância (a propósito da contratransferência) à totalidade das atitudes e da conduta do analista em relação ao seu paciente, chegando mesmo a referir a disposição das almofadas no divã, como algo que merece atenção.

Não conseguimos parar de comunicar e de transmitir algum tipo de informação sobre nós, não é? Por momentos pensei que me poderia tornar fóbica em relação à minha própria espontaneidade, esquecendo-me que é essa espontaneidade que me aproxima do meu semelhante e que está lá, independentemente da profissão que desempenhemos, e que nos torna, acima de tudo, pessoas. 

Ocorre-me pensar numa entrevista do professor Júlio Machado Vaz que quando declarou que sofria de uma depressão acabou por preocupar os colegas de profissão, que lhe disseram: “Oh Júlio, tu acabaste de te suicidar profissionalmente!” Curiosamente, esta confissão acabou por tornar-se num ponto de identificação para muitas pessoas que passaram a procurá-lo na expectativa de que ele as pudesse compreender melhor pelo fato de já ter atravessado o cabo das tormentas da porcaria da depressão....

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© Chez Lili

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