Terapia com ela - esclarecimento ao leitor



Há uns tempos comecei a escrever alguns textos soltos que intitulei de "terapia com ela." 


Apesar da minha formação em Psicologia Clínica e da Saúde (de orientação psicanalítica) e do meu recente estágio hospitalar, nenhuma das histórias são verídicas, nenhuma delas me passou pelas mãos ou pelas mãos de colegas de profissão, mas todas me passaram pela fantasia tendo em conta as diversas leituras que fui fazendo e a minha observação curiosa do mundo. Para além disso, criar e desempenhar personagens sempre fez parte do trabalho que tenho desenvolvido como atriz. A escrita criativa foi o meio para entrelaçar duas áreas que me são muito especiais. 


Confesso que me entusiasma quando me perguntam se me apropriei de algum texto ou das palavras de um paciente. Entusiasma-me saber que os meus contos podem ecoar no íntimo de alguém, que podem fazer sentido e que, para além de entreter, poderão (quem sabe) tocar e ajudar algum leitor a sentir-se menos só e mais compreendido nos seus dilemas. Talvez desta forma eu possa articular um sentido de vida (escrever) com o seu propósito.


Já dizia a  psiquiatra Ana Beatriz Barbosa que o sentido da vida apela à descoberta das nossas habilidades e talentos e o seu propósito relaciona-se com a execução dessa descoberta.  Quando descobrimos o sentido da vida e o executamos sob a forma de propósito, dividimos esse sentido com os outros e atingimos uma grande satisfação e realização interna. Fazemos o nosso melhor para despertar o melhor do outro, partilhando conhecimento. Uma vida só com sentido e sem propósito, ou seja, onde ocorra a descoberta das habilidades do indivíduo na ausência da possibilidade de execução das mesmas, pode levar a caminhos mais sombrios e depressivos. 


De facto, nem sempre conseguimos fazer das nossas habilidades uma fonte de rendimento, mas quando faz sentido e quando temos essa pulsão para a sua execução, não devemos inibi-la, nem reprimi-la, fazendo-a ganhar mofo dentro de nós. Devemos articulá-la com as outras responsabilidades e dimensões da nossa vida. Às vezes, essa habilidade existe apenas para a nossa satisfação e gratificação pessoal, outras vezes, passa para um plano de diálogo com o mundo, em que para além de me satisfazer a mim, consegue chegar ao outro e, quem sabe, responder a uma falta/necessidade desse outro; e outras vezes, transformamos esse plano na morada do nosso ofício e passamos a rentabilizar os nossos talentos. 


Eu não estou nesse plano, não faço da escrita o meu trabalho, mas enternece-me escrever e dialogar com quem passa por aqui sobre as personagens que imagino em terapia e serve esta reflexão para vos passar a mensagem que a privacidade daqueles que acompanhei no hospital e na faculdade e daqueles que acompanharei amanhã no percurso profissional será sempre profundamente respeitada. 






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© Chez Lili

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