Contos: em terapia com ele...


fotografia de Sara Ferreira @dinha_photography2


Como diz Coimbra de Matos: um sistema isolado entra em declínio por vários motivos, entre os quais saliento um, pela acumulação de detritos que não consegue reciclar. 

Acho que até certo ponto ele estava a entrar em declínio e tinha todas as armas para defender a sua própria destruição.

Lembro-me de me dizer que mergulhava a cabeça no trabalho e na sua realização profissional, excluindo qualquer possibilidade de se relacionar intimamente com alguém. Depois lá vinham as frases do costume: “neste meio não há amigos”, “a percentagem de divórcio já vai em 70%”, “você sabia que com a chegada do primeiro filho há uma queda abrupta da satisfação conjugal na ordem dos 67%?” , “e agora só se vendem apartamentos t1 e t0”. Quase como se pesquisasse pela receita de pudim flan no Google e começasse a ser bombardeado com anúncios de pudins no momento a seguir. Já diz o ditado, não procures o que não queres encontrar.

Falámos que individualidade e individualismo são conceitos diferentes e que a conquista de uma força interior mais calma, diferenciada e autónoma só nos pode preparar para nos relacionarmos melhor com os outros e não para nos isolarmos cada vez mais dos outros.

fotografia de Sara Ferreira @dinha_photography2

Estava ali uma pessoa de afetos, mas tinha aquele traço evitante que nos diz: “sinto-me desconfortável e nervoso quando estou muito próximo de alguém. Por vezes, nas minhas relações românticas, elas querem tornar-se mais íntimas e próximas de mim, mais do que aquilo que eu consigo e do que aquilo que me faz sentir confortável.”

Na reunião de supervisão percebi que a nossa conversa funcionava numa espécie de modelo chave-fechadura. Ele sabia, inconscientemente, que eu arriscava. Ele estava a desafiar-me e queria que eu arriscasse fazer-lhe uma "festinha", sem medo. O seu inconsciente tinha razão: de alguma forma ele sabia que, algures na minha infância, eu arriscava fazer festinhas àquelas abelhas gordinhas e peludas e terminava sempre o Verão com um dedo inchado.

Mas, com o tempo eu própria fechei-me para obras. Tornei-me igual a ele. Passaram muitos anos e parece que dentro de mim já há financiamento para acabar a construção da estrada; uma estrada que me liga afetivamente aos outros. Contudo, é uma estrada com portagens pois já dizia o meu supervisor: “os limites são estruturantes!”. Coimbra de Matos refere que o amor a mais, sem limites e sem assertividade é gordura emocional ou banha afetiva. O nosso maior psiquiatra e psicanalista português diz mesmo que nem tanto ao mar e nem tanto à terra, entre a besuntice e a sacanice venha o diabo e escolha, são os dois cornos da mesma cabra.

Parecia-me que naquele jeito evitante, ele estava a pedir-me que eu arriscasse e que insistisse nesse risco. Porquê? Porque no fundo ele deseja proximidade e afeto, mas depois, num fundo mais fundo, o desejo de evitá-lo é mais forte. Eu seria assim a pessoa ideal para ele continuar a confirmar aquilo que ele é. Se eu insistir no risco, ele terá todos os motivos para eventualmente evitar-me, rejeitar-me, picar-me e para me dizer, mais cedo ou mais tarde, que se sente desconfortável, que vai desistir da terapia. Muito provavelmente nem vai dizer nada, vai desaparecer simplesmente. Nesse momento, eu confirmaria que afinal continuo a ser atacada por um enxame de abelhas peludas e gordas e ele confirmaria que continua a ser um troglodita.

E aqui estamos os dois, frente a frente, em terapia, com uma oportunidade de fazer tudo diferente ou de, pelo contrário, continuar a fazer tudo igual.


(to be continued)







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