"A capacidade de estar só"



"Antes de voltares a relacionar-te romanticamente com alguém, dedica algum tempo ao exercício da tua individualidade."


Podia ter sido uma frase retirada de um livro, mas foi um conselho de família.




Sabem, há um conceito que eu particularmente adoro em psicanálise e que foi introduzido pela primeira vez em 1957 por Winnicott numa reunião da Sociedade Britânica de Psicanálise e que se refere “à capacidade de estar só”.

Conseguir estar só é em si uma conquista sofisticada. Não podemos, porém, confundir o estar só com isolar-se ou com sentir-se sozinho. No isolamento e na retirada excessiva estamos perante uma defesa patológica, enquanto que na capacidade de estar só estamos descansados, relaxados e confiantes enquanto apreciamos a solidão, precisamente porque interiorizámos com sucesso as nossas relações mais significativas.

Só posso sentir-me bem separado se dentro de mim eu estiver bem ligado - sem inseguranças, dependências, medos e frustrações. Tomei para dentro de mim, lá na minha infância e sobretudo, nos primórdios de mim - e depois também ao longo da vida - uma experiência acolhedora do outro e do mundo e por isso posso ir à minha vida confiante e apreciar o meu existir sozinha, posso estar comigo mesma, ter um pensamento próprio, sentir-me um indivíduo e não um prolongamento da vida de outra pessoa.

Se tal acontecesse estaria sempre dependente de algo externo para fazer a minha regulação interna/emocional, era como se estivesse sempre dependente de outro para assegurar a minha continuidade de existir, buscando sistematicamente a confirmação do que faço, sinto, penso numa voz exterior. Por exemplo, saltaria de relação em relação, ficaria dependente (excessivamente dependente) ao ponto de me transformar no outro, de me anular no outro – uma dependência patológica que está na base do que designamos como personalidade dependente, ou então, seria excessivamente independente. Aqui, correria o risco de atuar em falso self um outro conceito muito bonito de Winnicott, ou seja, atuaria na periferia de mim mesma, numa espécie híper adaptação ao meio, numa constante reatividade ao meio, intranquila e com muito esforço e exigência, provando que consigo fazer tudo sozinha, porque no fundo não confio que ninguém possa genuinamente ajudar-me, apesar de, longe da periferia de mim, desejar muito ser ajudada, desejar ser tomada a cargo e ser abastecida emocionalmente.


No estar só de Winnicott não existe fuga, isolamento, angústia, medo e frustração, é um estar só que não afasta os outros, antes pelo contrário é permeável e alternante com a experiência relacional. Eu tenho a minha individualidade e a individualidade do outro é respeitada e está representada dentro de mim, eu reconheço-a, mas não me diluo-o nela, estas individualidades não se misturam.



Mas não se assuntem pois, é normal, por exemplo, que quando duas pessoas se apaixonem, o tempo de namoro seja mágico e durante esse período as vidas se organizem para que os namorados possam estar o máximo de tempo possível um com o outro. Não há nada de patológico nisto. Mas esse tempo tem, também ele, o seu tempo. Neste sentido, depois espera-se a evolução de uma fase apaixonada de fusão para uma fase onde já sabemos o que esperar do outro, ou seja, podemos estar sozinhos a dois porque confiamos no outro, porque ele nos passou a mensagem que está lá e, por isso, eu posso ir à minha vida e focar-me na minha individualidade. 

É importante que nos relacionemos com pessoas que nos potenciem nesse estar só descansado. Os relacionamentos contruídos em cima de zonas sísmicas são extenuantes, nunca sabemos muito bem se o outro estará ali ou não, o que sente, se vai dizer bom dia hoje ou desaparecer durante um mês; ou se pelo contrário, vai ser demasiado intrusivo e entrar pela nossa vida adentro porque nos tornamos para eles numa espécie de bomba de oxigénio sem a qual não conseguem viver.











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© Chez Lili

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