O Poder Pessoal e a Arte de nos Relacionarmos com os Outros



Choca-me, zanga-me, dilacera-me a alma, dá-me cabo dos nervos e traz os termos mais obscenos à tona do meu léxico sentir a perda do poder pessoal de alguém, sobretudo face a uma situação de rejeição.

- O que é que eu fiz? Onde é que eu errei? Eu não mereço. Ninguém gosta de mim. Porquê que este padrão continua a repetir-se na minha vida? Porquê que só consigo atrair cafajestes e desclassificados? Porquê ela e não eu? 

É preciso resgatarmo-nos imediatamente de um discurso assim, carregado de culpa e soluçado na primeira pessoa. 

Porquê que insistimos em quem não nos faz cafuné, em quem desaparece sem se despedir e sem sequer agradecer o nosso colo, o nosso cuidado, o nosso abraço, a nossa entrega e a pessoa inteira que somos?

Não te percas de ti. Sê a tua prioridade. Toma uma atitude. Pára de internalizar o abandono, o medo. Resgata-te. Se o outro decidiu partir, respeita a partida. Quem sabe ele ou ela não será o vínculo para uma outra chegada. Quase sempre é.

 O relacionamento é uma arte, a arte de estar com o outro. Existem os génios e os burlões de sentimentos. Existem ainda os génios que não se aplicam e que caminham ao lado de grandes carreiras porque simplesmente não querem trabalhar. Parece-me que é por isso 
que por vezes nos sentimos burlados, mas até foi verdadeiro, sincero, sentido e profundo. 

Estou a lembrar-me do meu professor de piano que me disse um dia:

- Liliana, se quiseres mesmo tocar e caminhar para o ensino superior, tu consegues. Tens de trabalhar mais, muito mais, tens de tocar todos os dias...  A sensibilidade não chega, precisas de mais técnica, rapidez, precisão.

Uma semana depois, encontrámo-nos na sala de aula de sempre.

- Já decidiste? 
- Já.
- E então?
- Eu adoro o piano, mas não consigo comprometer-me. Ele exige cinco horas de prática diária, ou até mais. Tenho outras paixões. Gosto de representar, de escrever, gosto de psicologia. O piano precisa de mim todos os dias e exige que me feche numa sala durante horas e horas quando o que eu quero e preciso neste momento é de estar lá fora, de viver e de experimentar outros desafios. Resumindo, fico por aqui...

Quando alguém não quer estar mais connosco, isso não significa que fomos burlados e que foi tudo um engano ou uma mentira, que não somos merecedores de uma obra de valor. Significa apenas que não conseguimos comprometermo-nos com a arte de nos relacionarmos com o outro naquele momento. 

É tão bonito quando duas liberdades se encaixam. Imagina um concerto, imagina a partitura e o encaixe dos instrumentos... Convida para o teu concerto quem consiga primeiro aprender o seu instrumento e a sua melodia sozinho. Se essa pessoa não conseguir ou não tiver paciência, tu podes agradecer o adeus, pois não precisas de ninguém que não consiga acompanhar a tua melodia. 

E quanto a mim? Não valerá a pena perguntar se eu própria já aprendi a minha melodia? Se calhar ainda não. Se calhar ainda não estou nem segura e nem confiante e ainda tenho muitos compassos por resolver sozinha. É importante ser realista e menos emocional. O amor não funciona sozinho. Precisa de combustível e esse combustível compreende muitas variáveis: o estilo de vida, as famílias de origem, o trabalho, a liberdade emocional e até financeira de cada um, os objectivos de vida... Parece complicado, mas é mais simples do que parece. A simplicidade de ter uma atitude, amor próprio e desapego e de resistirmos à questão: porquê que a relação do vizinho resulta e a minha não? 

Se ao menos as paredes do vizinho falassem.... 



Um abraço, 

Lili




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© Chez Lili

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