Na falta de vontade, lá escrevi...




No comboio, com a aproximação do Porto, parece que tudo se simplifica e que me aproximo de mim, da pessoa que verdadeiramente sou e que, muitas vezes, se foi perdendo, se foi desviando de si para poder pertencer a alguém, a um lugar qualquer, a dado momento ou a todo o momento, até. Perdoo-me porque estes desvios fazem parte do crescimento e do amadurecimento, da libertação e do desapego. Muitas vezes, enganei-me a pensar que estava bem resolvida com as minhas escolhas e com a minha solidão, mas imediatamente tentei compensar o vazio com pessoas que, afinal, me deixaram ainda mais descompensada.

Um desejo impossível? Diminuir o número de quilómetros entre Barcelos e Lisboa, entre a família e o trabalho, entre o passado e o presente. Apesar de ter muitos amigos em Lisboa, sei que na capital estou muito entregue a minha mesma.

Eu gosto da minha própria companhia. Divertirmo-nos e sabemos estar bem em silêncio, a convivência é boa no eventual tédio e na trivialidade dos dias. Mas, por vezes, discutimos e cansamo-nos de nos ver e ouvir. Eu e ela. Canso-me de mim. Convido, então, uma amiga para sair ou entrego-me para a adoção de famílias amigas que me recebem nas suas casas pombalinas para jantar, empresto-me para ver um filme e para ir ao teatro com elas. Sabe bem ser convidada para uma dinâmica familiar. Dá-me ordem e um pilar emocional, para depois voltar a um T0 ou a um quarto alugado, à solidão das rotinas, ao frigorífico meio vazio, àquela pequena lista de supermecado para uma alma só. 

Quem me conhece sabe bem como gosto de alimentar os outros,  como gosto de cozinhar e de usar isso como desculpa para ter pessoas à minha volta. Há coisas que só fazem sentido se forem partilhadas e, cozinhar é uma delas. Por isso, raramente cozinho apenas para mim. Quando não me esqueço, lá vou desenrrascando o meu almoço e o meu jantar sem grande entusiasmo. Nem sempre foi assim, mas, por acaso, tem acontecido com frequência. 

Como actriz ou como alguém que finge escrever umas coisas num blog ou uns guiões aqui e ali, lá vou imaginando essas pessoas, essa casa, essa mesa, a gestão dos conflitos, as refeições e as compras para cinco no supermecado. Sejam amigos, seja família... Imagino e escrevo a minha história em família ou rodeada de amigos numa casa pombalina, onde Barcelos fica ali mais ou menos perto de Odivelas e, a qualquer momento, a minha mãe também pode aparecer para dar uma ajudinha, para uma conversa, para me ajudar com as crianças (se as tivesse).

Acho que a ficção me alivia os sonhos mais ou menos frustrados.

Sabem, não me apetecia nada escrever hoje. Quando vou à Fnac e à Bertrand não faltam livros de receitas para a felicidade, livros de desenvolvimento pessoal e de auto-ajuda com instruções para nos motivarmos todos os dias, para sermos seres plenos, completos, felizes, realizados e independentes.

Depois, em vez de compararmos a nossa vida com a do vizinho, comparamos antes o nosso feed de Instagram com o de um estranho qualquer. Isso. O importante é que a nossa vida seja Instagrammable, que a nossa casa tenha aquele Danish look, que compremos um livro e uma planta só porque ficam bem na foto, que o nosso namorado seja Instagrammable também (já agora!).
 Contra mim falo que passo a vida a bisbilhotar o Instagram de estranhos.

Bem... foi a minha falta de vontade para escrever que curiosamente me levou a escrever. Neste blog os dias nem sempre são espectaculares. Não queria passar ao lado desta escrita a preto e branco, mais sombria, que vos conta que, às vezes, um dia pode ser simplesmente igual ao anterior, com as mesmas dúvidas, com os mesmos bloqueios, sem roupa nova, sem instruções para a felicidade, sem maquilhagem, sem viagens, sem orçamento até, sem prémios e galas, sem nada, sem nada interessante para contar.

São vários os dias em que prefiro adormecer os meus guardas e deixar que outros tomem conta de mim, porque não me sinto nem forte, nem independente, nem realizada e, nem me apetecesse focar-me assim tanto em mim como é tão imperativo nos dias de hoje. São dias em que me apetece ir ali jantar à casa dos meus pais sem que, para isso, precise de viajar cinco ou seis horas, apetece-me entrar em casa e jantar ao som de mil e uma histórias contadas à mesa, melhores que a história daquele livro que tenho para ler sozinha no meu sofá, num T0 pombalino.





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