Um Molho de Chaves de Mim



Sabes, hoje estava na estação de Oriente e lembrei-me que no regresso a casa passaria inevitavelmente pela dela. Decidi, então, mandar-lhe uma mensagem:

- Posso passar pela tua casa só para apanhar aquele livro que disseste que me ias emprestar!? Chego aí dentro de dez minutos, pode ser?
- Passa! 

À chegada, a porta quase que se abre sozinha. 

- Olha que isto está tudo desarrumado! Ficas para jantar!?
- Não posso, mas podemos lanchar!
- Vamos lá baixo comprar pão, então!
- Olha, tens um foguete na perna...
- Está calada! Quase que me esbardalhei toda ao bocado!
- Tu realmente não fechas bem a marmita!
- Olha... e o outro que te andava a bater o couro?
- Esquece, esse já bateu foi a caçoleta!


E é assim o meu "eu" ao pé dela. É assim que me sinto "eu" ao pé dela. O eu do improviso, das frases que não sei acabar, porque sou mais preguiçosa para falar do que para escrever, porque há amigos assim, que nos adivinham, que não reparam na forma como pegamos nos talheres ou como conjugamos os verbos; amigos que seguimos até à casa de banho só para não interromper a conversa sobre um furo qualquer que aconteceu numa meia (o tal foguete na perna); amigos que para além do livro, nos emprestam os rolos de papel higiénico para acabar de chorar o que não foi acabado quando a bateria do telefone morreu.

Mas não te assustes... 

Também sei ser actriz de novela e riscar do meu guião estas falas e todo o meu jeito censurado em horário nobre. Sei vestir o meu modelo Oscar de La Renta que comprei no AliExpress, sei relembrar e ensaiar aquele sorriso tímido que fazia quando ainda não conhecias o meu jargão ou as minhas palavras inflamadas que ouves no trânsito ou quando o tempero corre mal,  também sei fazer aquele scroll na app da CNN e desenrrascar-me quando me deixas sozinha em jantares de colarinho branco, não sei falar francês, mas sabes que sei tocar piano, sei despedir-me das mulheres que te cansaram a córnea a noite inteira - afinal a beleza não é um recurso limitado - e sei fingir que fico saciada com pouquinho, mas olhas para mim e sabes que o meu ar é de quem ainda tem aquele ratinho no estômago pronto para parar no Cais a caminho de casa... Sabes, se há roteiro que memorizei no teu GPS é o do pão com chouriço.

Às vezes pergunto-me qual a versão de mim que melhor conheces? 
Tu... os outros... 
No outro dia disseram-me: 

- Ias adorar conhecer a namorada do meu irmão!
- Então e porquê?
- Porque ela é assim como tu: destravada, divertida e não estás cá com m*rdas!  Vou perguntar-lhe se posso levar-te ao jantar hoje à noite.

Não me lembro da última vez que alguém me definiu assim. Divertida e destravada? Geralmente, sou calma, calada, pensativa... por aí... 
Incrível como diferentes pessoas nos conhecem e se lembram de nós de diferentes maneiras...  Como com uns podemos lanchar de improviso e com outros, temos de fazer a marcação inglesa com dois meses de antecedência.
É incrível notar os diferentes "eus" que vamos ensaiando na vida.

Incrível o quão poucos são os que nos conhecem de todas as maneiras e nos fazem sentir plenos e inteiros nestas esquizofrenias todas. 

Ainda não compreendi se guardas no bolso um molho de chaves de mim, ou apenas uma ou duas... 




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© Chez Lili

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