Não vou conseguir contar tudo.... mas aqui vai....




"Esta é a minha sobrinha, a Patrícia, ou melhor, a Lili... Ela já sofreu do mesmo problema que tu estás a sofrer... "
"Lili, esta é a Sofia!"

Não precisei de consultar o catálogo de todos os meus problemas para perceber qual deles me ligava à Sofia. 

Cumprimentámo-nos imediatamente com um abraço apertado.  Houve uma empatia imediata. Não falámos muito.

A Sofia sofria de anorexia nervosa. Eu sofri de anorexia nervosa aos 13 anos. 

Depois das férias de Verão apareci na escola pela primeira vez para consultar os horários do próximo ano lectivo. 
Lembro-me de vestir umas calças roxas e um top com flores que deixava os meus ossudos ombros a descoberto. Era Setembro. Não me lembro de ter visto as minhas amigas nesse Verão. 

Passei aqueles meses mais quentes a olhar-me ao espelho, a correr de farmácia em farmácia para confirmar o meu peso. A balança da farmácia da Avenida registava mais cem gramas que a farmácia da Rua Direita, mas a minha altura registada na farmácia da Rua da Estação era inferior à altura registada na  farmácia Central. As minhas idas à praia e os mergulhos no mar foram substituídos por isto, por esta obsessão em coleccionar os tickets das balanças que se contradiziam e, assim, me davam mais um desafio: o desafio da precisão, da perfeição.

É a primeira vez que escrevo sobre isto. Não sei se vou conseguir contar tudo. 

O perfeccionismo era a minha missão. Tinha um corpo de menina desesperado por se tornar mulher. As ancas e os seios a desenvolver, as primeiras borbulhas a aparecer e aquela anorexia era uma camisa de forças para travar toda essa violenta transformação. O cabelo caía. Tinha fome. Ouvir o barulho da fome no meu estômago e controlá-lo era uma conquista. Estava fisicamente fraca e pálida, mas, até hoje, não houve fase na vida em que me sentisse mais forte. Não entendo de onde vinha aquela força toda. Era quase desumana. Os olhares de pena, as palavras mais agressivas como cadáver e defunto, a própria desnutrição nunca me desfocaram ou desconcentraram. 

Ganhei feridas nos pés de tanta desnutrição e exercício. Na minha cabeça aquelas feridas eram uma conquista também. Significavam o meu esforço. Quanto mais feridas, mais meias usava para amortecer o impacto do pé do chão e, para assim, continuar a correr, a saltar, a dançar, a nadar muito, a fazer tudo para queimar qualquer caloria ingerida. O meu combustível era mental. Aquela força toda era mental. Nunca desmaiei ou chorei.  

Vestia o 34, às vezes o 32.  Tudo o que comprava tinha de ser ajustado uns centímetros pela minha mãe. As coleções das lojas não me ficavam bem. As modas não me ficavam bem. Eram trapos pendurados num corpo sem vida, sem alma. 

O ponteiro da balança bateu os 44 kilos. Imaginem-me com menos 3 centímetro de altura e com menos 21 kilos. A hemoglobina desceu até aos 7 valores. O médico queria internar-me. O internamento significaria a perda total do meu controlo. Prometi-lhe que ia melhorar. Melhorar implicaria engordar. Para quem convive com alguém que sofre de anorexia nervosa deixo-vos um pedido:

finjam não notar as melhoras! Não felicitem os doentes de anorexia nervosa por terem engordado, não lhes digam: 

"Estás com melhor cara! Já começas a ganhar umas bochechas! Já estás mais gordinha!" 

A intenção pode ser boa, mas garanto-vos que não estão a ajudar. 

Desapareci durante dois meses. O ano lectivo terminou. Era Verão outra vez e surgiu a oportunidade de viajar até aos Estados Unidos e de passar lá o Verão inteiro. Nova Iorque, New Jersey, o anonimato, ninguém para comentar se estava a engordar mais ou menos, se naquele dia estava a comer melhor ou pior, se teria uma recaída ou não. Eu podia sair de casa sem defesas, desarmada, sem precisar de força mental para nada. Estava a engordar, mas sentia-me mais leve. 

No dia 22 de Setembro de 2001 volto a Portugal com 56 kilos. As aulas já tinham começado há uma semana. Eu era a última a chegar à festa. Isso preocupava-me. Queria tanto passar despercebida. Continuar anónima. 

Tive sorte. As minhas amigas estavam verdadeiramente felizes por mim. Os rapazes também gostaram de me ver bem, mas noutro sentido. Sentia quase que uma celebração da minha saúde. 

Esta experiência de vida foi determinante na minha definição interior como mulher. Quem me conhece sabe que solto os lobos sempre que alguém se mete inconvenientemente na minha relação com o meu prato. 

Já diz o ditado: "quem diz tudo o que quer, ouve o que não quer!" 

Esta relação com a comida ramifica-se em mil e uma outras relações: na relação com o meu corpo, com a minha confiança e auto-estima, com o meu passado, com a minha doença, com as feridas e bolhas nos pés. As minhas imperfeições são a alma dos meus trapos. Olho à minha volta e celebro a beleza das mulheres sem nunca me sentir ameaçada por nenhuma delas, nem pelas namoradas e amantes daqueles que amei e não me retribuíram. O facto de trabalhar em televisão e em moda durante muitos anos educou-me para todos os processos de marketing, de tratamento de imagem, de construção de uma figura pública, de deturpação de conteúdos e de imagens, do desvio das massas para certas tendências.  Gostava de viajar no tempo e de ensinar tudo o que sei àquela menina de 13 anos que teve a sorte de se libertar a tempo da doença, daquela camisa de forças. 

Gostava de ter tido mais tempo para conversar com a Sofia sobre tudo isto, mas descansa-me o abraço que lhe dei, que lhe fez sentir compreendida.


1 comment

  1. A corragem de partilhar estas experiencias ja e um grande exito pessoal e notavel, e pode ajudar muitas pessoas em situacoes similares. Bem escrito como sempre, e para uma boa causa.

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© Chez Lili

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