Espaço, espaço meu! Haverá melhor que cada um ter o seu?

















Nunca vivi em casa grandes. Eram apartamentos com dimensões normais e que incluíam uma sala, dois quartos, uma casa de banho, uma cozinha e, por vezes, uma varanda. Depois havia o hall de entrada e os corredores, dados garantidos. Partilhei uma casa com uma amiga em Lisboa, na zona no Braço de Prata e vivi, também, em Benfica, numa casa mais antiga, mas em óptimas condições. Vivi no Porto, na rua da Boavista a dois passos do metro da lapa e também vivi noutro apartamento na Praça da Republica, um pouco mais acima. A renda de todos estes imóveis nunca excedeu os 500 euros. Bem sei que viver em Lisboa ou no Porto em 2009 e viver nas mesmas cidades em 2017 são duas realidades completamente diferentes e que 500 euros é um valor bem significativo para uma renda tendo em conta as nossas condições salariais, a escassez de trabalho e toda a crise económica sentida na última década. 

Contudo, viver em Londres ajudou-me a valorizar os sítios e as casas onde vivi anteriormente, o espaço que tinha, os corredores e varandas, as despensas, espaços onde guardamos o que usamos menos, a comida para o mês, os litros de água e de leite, os pacotes extra de arroz, massas e cereais, o aspirador, a colecção de sacos de todas as marcas, detergentes, guarda chuvas, o juicer que comprámos mas que afinal dá imenso trabalho para lavar, a colecção de meias sem par, a tábua de passar a ferro. 
Em todas essas casas havia um ou dois espaços para manter longe da vista a desorganização da vida doméstica. 

Mudar-me para Inglaterra é realizar que as minhas despensas -invicta e pombalina - tinham o potencial de serem convertidas e alugadas por 300 libras, sem contas incluídas, na capital inglesa. Lembro-me de uma casa onde vivemos bastante tempo em Londres e cujo senhorio insistia em alugar um dos quartos com dimensões bastante limitadas, para não falar das graves condições de humidade do espaço. Sempre que um potencial inquilino respondia ao anúncio tínhamos o cuidado de questioná-lo sobre a sua altura!

- 1.85 m  de altura? Não perca tempo, poupe a sua viagem, pois com esse tamanho vai ficar com os joelhos fora da cama. Se fosse só os pés... mas neste caso... Acredite no lhe digo e vá à sua vida.

Lutámos igualmente com o senhorio para que ele não alugasse o sotão e não transformasse a sala num quarto....  até que desistimos. 
Adiámos esta desistência por longos meses pois se há algo altamente triste e deprimente, esse algo é procurar uma casa para alugar em Londres. Além disso, sabíamos que queríamos estar sozinhos pois como casal estávamos fartos de partilhar, estávamos cansados de não ter privacidade. 

Pessoalmente, cresci com muito silêncio em casa. Os meus pais são pessoas muito privadas. À excepção dos Natais, Páscoas, casamentos e raros domingos e férias em que fazíamos um programa com os tios, ficávamos quase sempre por casa, íamos à aldeia, descansávamos, passeávamos os quatro um pouco, mas nunca íamos muito longe, fazíamos sardinhadas e visitávamos feiras e mercados.

 Londres já tinha 8 milhões de pessoas pelas ruas e oito milhões de pessoas era tudo aquilo que eu menos precisava quando chegava a casa. A nossa casa. Precisava do silêncio com o qual cresci, da concentração, de ter o meu conceito de organização e de limpeza e de decoração e de não precisar de o ajustar ao conceito de ninguém. 
Há pouco tempo jantámos com uns amigos que tiveram um trajecto semelhante ao nosso aqui em Londres e que nos confessaram que depois de anos sem decorar os quartos que arrendavam, queriam finalmente decorar a sua casa nova. Era um estúdio mais ou menos como o nosso antigo estúdio que podem ver na fotografia a preto e branco a seguir, com a vantagem de eles terem um pequeno hall de entrada e de terem uma casa de banho maior que a nossa. 

- Que sorte! Tens um hall de entrada! Uau!

A minha alegria ao ver um hall de entrada, tão útil para os casacos, para os sapatos, para os guarda chuvas! Eu também queria um hall de entrada, só meu! 

Os corredores das casas partilhadas são uma espécie de avenida. Não são de ninguém, mas de todos os estranhos com quem vives que alugam os quartos do lado. 
O nosso primeiro estúdio não tinha hall de entrada, mas estávamos finalmente sozinhos ao fim de 3 anos a partilhar casa. Era uma conquista e eu queria decorá-lo também, porque sentia que tinha o meu espaço, o meus silêncio. Lembro-me de brincar com os amigos que nos visitavam pela primeira vez. A suposta visita guiada pela casa estava terminada logo que eles entravam!

- Gostava de vos fazer um visita guiada but...
 I am afraid that's all there is! 

A verdade é que habituar-me a viver em espaços pequenos ajudou-me a relativizar a noção de espaço e a sentir-me numa mansão quando estou  no T3 dos meus pais em Barcelos. 
A ausência de um hall de entrada e o facto de ter um sítio limitado para sapatos e casacos de Inverno educou-me para o minimalismo sobretudo no que diz respeito à moda. Olhar para uns sapatos implica um segundo pensamento:

- Será que vou ter espaço para este novo par de botas, ou para este casaco de Inverno? 


Num espaço pequeno 90% das coisas devem ser funcionais. A mesa que vocês conseguem ver na foto, podia abrir e sentar umas seis a 7 pessoas. Porém, elas tinham que permanecer sentadas o jantar todo. Nada de se levantarem todos ao mesmo tempo, senão é muita confusão.

O número de panelas teve que ser calculado também, assim como a lista de supermercado. Esqueçam as compras mensais ou os pacotes extras de arroz Carolino ou as recomendações da nutricionista de beber três litros de água por dia. Não há espaço para tanta água! Para não falar no tamanho e no design do aspirador! Nada de desperdícios. A conta da electricidade acabou por ser menor e o tempo que demorava a limpar a casa também.  Mas esta questão do tempo de limpeza é discutível e fica para outro post. 

Entretanto já mudámos de casa novamente e e apesar de já ter um hall de entrada e um corredor e a minha própria avenida, na altura de comprar continuo com a minha mentalidade minimalista e cada vez mais com a sensação de precisar de viver com menos espaço.

Menos tem charme.


Quanto a números! A renda rondava as 900 libras mensais - sem contas - e quando deixámos o estúdio, o senhorio aumentou a renda para 950 libras mensais. 



2 comments

  1. As maravilhosas rendas de London town! Teríamos uma mansão em Portugal!! :)

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  2. Uma mansão é high maintenance:) Pelo menos, teríamos uma casa normal e dinheiro para quinhentas outras coisas:) beijinhos Sara

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© Chez Lili

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