Por qué no te callas?

Por qué no te callas? 

Digo e repito esta frase para mim mesma, sobretudo quando estou a ponto de perguntar a casais amigos se pensam ter filhos ou em ter mais filhos. Muitas vezes, a curiosidade das pessoas é tão inocente e banal como fazer um comentário sobre o tempo, se vai chover ou se vai ficar encoberto. A verdade é que o assunto pode doer e abrir muitas feridas sobretudo para aqueles que atravessam problemas de fertilidade. 

No início da idade adulta, por volta dos 18 ,19 anos, não pensava muito no tema, mas hoje em dia, ao ver o mural do meu facebook inundado por fotos de barrigas com semanas e com meses de gravidez, fotos de bebés acabados de nascer, fotos de amigos que, 10 anos depois, partilham a feliz notícia de que vão ser pais... ao ver tudo isso, também fico mais sensível para a realidade daqueles que não podem ser pais tão facilmente assim. É aqui que a frase "por qué no te callas?" começa a ouvir-se cada vez mais alto dentro de mim. O impulso das perguntas morre ali. O assunto morre ali, sobretudo depois de conhecer alguém que passe por este problema, depois de ler as experiências partilhadas nos forums por mulheres e homens que, com uma força e coragem silenciosa, longe de tudo e todos, tentam resolver os seus problemas em clínicas de fertilidade. 

A mim também me perguntam, a nós. Perguntam se queremos bebés, quantos, quando, o nome, a altura, tudo... enfim... 

Se há 5 anos dizia que "não" tendo que justificar o porquê de não sonhar com a maternidade como se tal opção fosse um crime, a verdade é que hoje digo que "sim", e digo tanto que sim que penso que, de facto, poderia já ter começado a pensar nisso mais cedo, sobretudo na fase em que convictamente dizia que não. É confuso não é!?

Fico feliz por ter conhecido de perto todas as confusões e convicções. Hoje, empatizo com ambos os lados, com os argumentos daqueles que não querem e dos que querem ser mães e pais. Cabe a cada mulher e a cada casal descobrir essa vontade ou a falta dela por eles próprios, sem julgamentos, sem que sintam a necessidade de se defenderem sobretudo quando a decisão é não. 

Se um dia atravessar problemas de fertilidade, imagino a enxaqueca de ser abordada com a questão "e os filhos?". Suspeito que a minha delicadeza e simpatia se esgotem também. Pode ser que "por qué no te callas" se faça ouvir como nunca se ouviu, nem pelo Rei Juan Carlos. 

Este texto só podia ser ilustrado com capas de revista protagonizadas pela Jennifer Aniston. Se há celebridade que sofre com esta perseguição, é a Jenny, que eu adoro e que tem sido sempre tão cordial e diplomata com os media sobre este tema. Viver todos os dias cansa, mas viver e ser mulher todos os dias, cansa mais. A última capa que diz "finalmente grávida" é a coisa mais triste de se ler - Oh mulher, até que enfim que estás grávida! - Como se o mundo de uma mulher ficasse em compasso de espera, como se o mundo todo estivesse em compasso de espera... Uma ansiedade que se gera e que nada ajuda sobretudo quando se quer e não se pode.  

Vamos falar do tempo em vez disto... da chuva em Londres e do sol em Portugal.












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© Chez Lili

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