Chez Lili

by Liliana Brandão

"A linha fantasma" e o desafio da convivência





No filme "A Linha Fantasma", Daniel Day-Lewis interpreta o papel de Reynolds Woodcock, um criador de alta costura de temperamento peculiar e difícil, profundamente obcecado pela sua arte, pelo seu trabalho e pela perfeição. Reynolds conhece Alma, personagem interpretada por Vicky Krieps, com quem desenvolve um romance que vai acabar por desafiar o artista na sua excessiva ordem e temperamento.

Apesar de ter escrito a palavra romance, a relação entre Reynolds e Alma era tudo menos uma relação de amor romântico. Alma era importante na vida do artista, mas a sua importância era secundária, a sua existência era necessariamente desfocada para que não interferisse com o único e verdadeiro amor da sua vida: o amor pela arte.

Cansada de ser um fantasma naquela casa de bonecas e vestidos, Alma decide envenenar Reynolds com uma poção de cogumelos. Astuta o suficiente para não o matar, mas para o colocar apenas numa situação de profunda fragilidade, dor e dependência, Alma consegue assim desarmar Reynolds das suas obsessões, do seu génio difícil para sentir-se, por momentos, próxima dele afectivamente.

Aquando da sua recuperação, Reynolds pede Alma em casamento, reconhecendo assim todo o amor e apoio que esta lhe deu quando estava doente.

O melhor do casamento foi mesmo o próprio pedido! Escusado será dizer que o marido, pouco tempo depois, começou a moer-lhe a cabeça outra vez. Reynolds voltou a si mesmo, ao seu rigor, ao seu isolamento e distanciamento emocional em prol do amor pelo seu trabalho.
Frustrada, Alma volta a envenená-lo. 
A surpresa acontece quando ele próprio descobre que está a ser envenenado e.... Aceita! 

Como Reynolds não se autoriza a descansar, aquele veneno surge como uma droga que ele, voluntariamente, não seria capaz de tomar e que lhe permite desligar-se da sua obsessão pela arte da alta costura. 
Freud dizia que precisamos de amar para não adoecer, mas Reynolds precisava de adoecer para se deixar amar e ser amado, muito além da sua obra. 

Isto é tudo muito poético e bonito, mas a minha única dúvida é?

- Onde é que se apanham cogumelos daqueles? 
Monsanto? 

Há vivências com certas pessoas que são incríveis e há convivências com essas mesmas pessoas que podem ser verdadeiros pesadelos.

 De repente, lembrei-me de um namorado meu que, ao saber que eu gostava de nadar, surpreendeu-me dentro da piscina de touca azul.

-Surpresa!
- O que é que estás aqui a fazer?
- Vim fazer-te companhia!
- Mas eu vou nadar 45 minutos sem parar!

Confesso-vos que me senti como o Reynolds, como se a minha ordem naquele dia tivesse sido interrompida. Lembro-me de sentir uma certa inquietação por ter de partilhar algo que ansiava fazer na paz do senhor. Se fosse um estranho, talvez eu não me importasse de partilhar a pista com ele, mas como era o meu namorado, sentia a obrigação de lhe fazer companhia nas pausas entre o Crawl e a Mariposa.

Estranho desabafo, eu sei...  

O Reynolds era estilista. Eu cá sou actriz e gosto de escrever. Escrevo muito e, às vezes, o simples facto de estar a olhar para uma folha em branco ou para o ecrã do meu computador sem escrever absolutamente nada, não significa que estou a fazer nada e que, por isso, possa ser interrompida ou desafiada para fazer algo mais divertido, ou possa ser acusada de estar a procrastinar.  

"Eu não gosto de confrontos!" 
exclamou o artista, no filme.

Para confrontos, já bastam os nossos próprios pensamentos, a nossa imaginação. 

Conviver com alguém - sobretudo conviver com alguém que é artista - é aprender estes tempos e estas dinâmicas e não interromper compassos inteiros de silêncio, pausas de semibreve, pausas longas, íntimas, de angústia, de pensamento, ou de nada! 

Li recentemente um artigo no qual um escritor dizia algo assim...

- We fall in love with people we find inspiring. If you don't set my pen on fire, how are you going to set my bed on fire?

 Os confrontos não inspiram ninguém. O psiquiatra José Gameiro adverte sempre para o cuidado que devemos ter com a crítica na dinâmica conjugal, quando acusamos e criticamos o outro à medida que vamos descobrindo as nossas diferenças e o que nos afasta daqueles que amamos. 

O Reynolds não gostava de espargos com manteiga e eu gosto de nadar e de escrever sozinha, gosto de tomar o meu café bem quente, não gosto de ver loiça acumulada na pia, como de tudo mas não gosto que venham para o pé de mim dar palpites sobre a forma como cozinho, não gosto de conversar muito sobre o meu trabalho como actriz, não gosto que me apressem, tenho uma pequena obsessão por varrer e aspirar o chão (talvez porque ando sempre descalça), gosto de arrumar a cozinha antes de começar a comer e, por isso, como sempre a comida já fria, falo imenso durante o sono...  e não gosto de tomar o meu pequeno almoço de pijama... 

Contudo, artistas como o Reynolds são sempre acusados de narcisismo, de ter um temperamento complicado, mas serei eu a única a achar que a maior alienação acontece quando nos tornamos como a Alma, quando queremos envenenar alguém porque estamos cansados de "jogar xadrez" com pessoas assim? 

A convivência não é fácil, mas não é obrigatória; não tem de ser nem forçada ou mendigada. A convivência pode ser negociada dentro do possível e se não for possível, porquê perpetuar uma relação até ao banco dos réus? 

Porquê? 

 Eu compreendo a obsessão do artista pela sua obra, mas compreendo menos a obsessão de alguém como a Alma pelo seu artista, que aceita anular-se e ser profundamente infeliz e desamada na sua verdadeira natureza para encaixar no estilo e ordem de vida de Reynolds.  Achei toda aquela relação uma verdadeira doença, onde as únicas mudanças na personagem e no romance com Alma são induzidas por envenenamento com cogumelos mágicos.


José Gameiro já nos diz:

"Casamos com um cabaz de Natal: à frente vemos o caviar e o champanhe e atrás estão a latas de sardinha e de atum."










Sobre a felicidade.



Hoje deixo-vos aqui um breve pensamento. Algo que já tinha escrito uma vez. Se lerem os posts anteriores, talvez encontrem esta ponta solta algures. Há pontas soltas que merecem parágrafos e livros inteiros. Esta é uma delas. 

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Quando tinha dezoito anos gastei a maior parte das minhas poupanças num aparelho dentário, apesar do meu pai me ter tentado convencer que o meu sorriso tinha charme assim, todo torto! Recentemente, encontrei umas fotografias minhas de um fase particularmente feliz da minha vida. O que denuncia essa felicidade não é a memória que tenho daquele momento, nem o meu sorriso de três mil euros que se vê nas fotos... 

É algo mais...

Não há conta poupança, não há aparelho que corrija aquilo que nos vai na alma e que se rasga no olhar. Isso. Bela plenitude sentida no rosto rasgado, numa sentença aberta a todas as minhas rugas. Não me importava de envelhecer tudo de uma vez se pudesse perpetuar até hoje e para sempre aquele momento. 

Sabem, chego a questionar se seria funcional viver todos os dias assim. 
Estou a lembrar-me de um texto que li recentemente. Duas mães observam os filhos a brincar e a dada altura uma delas questiona: 

- Não achas que o meu filho é demasiado feliz?
- Como assim?
- Claro que eu faço tudo para que ele seja feliz, mas como eu cresci pobre - e agora pertenço à classe média-alta -  às vezes temo não estar a prepará-lo para o mundo real! 
(I don't know how to raise a middle class kid - she said!)

Desenvolver esta conversa seria entrar numa discussão sobre, por exemplo, a relação entre a ansiedade e a condição socioeconómica na educação das crianças. Talvez esta seja uma nova ponta solta a ser esmiuçada num próximo post.  

Por agora, o que me inquieta é a nossa incrível capacidade para sabotar a nossa própria felicidade. Inquietam-me as nossas internas câmeras de vigilância e o facto de a tragédia ser tão nuclear em nós.

Olho para aquela fotografia e penso:

- Antes que me assaltem, eu mesma vou perder aquele momento. Eu mesma vou desaparecer da festa mais cedo, nem me vou despedir de ninguém, vou embora sem avisar para não correr o risco de já não me lembrar onde moro no fim.

Compramos aparelhos de centenas que nos ajudam a sorrir melhor, compramos viagens, livros, aventuras, casas, carros, experiências de todo o tipo, mas sabotamos o que nos rasga gratuitamente o olhar com complicações e medos.

Não aceitamos a felicidade como algo passivo, algo que flui naturalmente. Precisamos de ajuizá-la para sentir uma certa autoridade sobre ela.

Acreditamos que não podemos ser e estar felizes, mas precisamos de fazer algo para sermos felizes; acreditamos que estamos sempre destinados a possibilidades de felicidade mais elevadas. 

A melhor virtude passa pelo diálogo e pela discussão dessas possibilidades. 
Contudo, parece-me que o pior vício é exactamente o contrário, é não poder discutir nenhuma possibilidade, sobretudo quando as partes que escolhemos para discutir e para stressar o todo - aquele todo que tão plenamente flui -  essas partes são as mais
insignificantes. 

Continuo a olhar para a fotografia e, num remate final, questiono-me:

que tipo de Homem queremos ser no assalto ao meu próprio bem-estar: um Homem virtuoso ou um Homem de vícios?

......










A contabilidade nas relações...



Quando penso na palavra sucesso, eu penso nela. E o que é o sucesso? É atingir um objectivo, por muito pequeno que ele seja. O sucesso encontra-se no cumprimento das missões de todos os dias, independentemente da sua natureza ou tamanho, o que nos vai dando um sentido de realização, de foco, de orientação e de movimento na vida. Quantas vezes vamos  complicando e arrastando o que escrevemos na agenda? Quantas vezes procrastinamos ou deixamos que nos distraiam da nossa principal avenida. Perdemo-nos em becos e ruelas só para confirmar o ditado:

  "quem se mete em atalhos, mete-se em trabalhos!"  

Com ela, eu aprendo a levar sempre comigo uma folha de Excel, uma folha de cálculo para a vida toda. Naquelas células, ela ensina-me a encaixar as variáveis, as decisões, as pessoas, as lágrimas e as gargalhadas, as facturas de cada experiência. Tudo para o confronto inevitável com a minha percentagem de crescimento, de auto-realização, de auto-estima, de self respect. 

Os números dela encontram aqui as minhas palavras. Tudo começa a fazer sentido. 
Já dizia o Einstein: 

"Insanidade é continuar a fazer a mesma coisa e esperar resultados diferentes!" 

Para muitos, desde que a insanidade lhes dê menos trabalho que o conceito de mudança, será então preferível viver na falência de todos as variáveis daquela folha de excel. Falidos de amor, de self-respect, de força, de decisão. 

Sabe-se que por dia nos ocorrem, em média, 60 mil pensamentos. Sabe-se também que 90 por cento desses pensamentos são exatamente iguais aos pensamentos do dia anterior. Não há mudança de vida que se encaixe em dez por cento da cuca de ninguém, muito menos se essa massa cinzenta não é a tua. Posto isto, que a tua percentagem de crescimento não dependa dos dez por cento de ninguém. 

- Um dia serás mãe de dois rapazes de de uma menina. Foi uma cigana que nos contou. Foi o que o repetido jogo da agulha feito pelas tias todas nos contou. Enquanto a cozinha aquecia com o vapor vindo das panelas de bacalhau a cozer, tu estendias a tua mão pequenina e perguntavas qual seria o tamanho do teu Natal um dia, quando fosses grande. A agulha nunca nos contou outra história. Era sempre a mesma. Era um Natal sempre do mesmo tamanho. 
Não te rias! 

Há algo de muito matemático nas relações. O amor é uma grandeza e diz a ciência que o conceito de grandeza refere-se a tudo aquilo que pode ser medido. Portanto, o amor só é grande se puder ser medido como tal. É isso. Se o amor parece confuso para ti, então pensa antes na palavra respeito. É aqui que o amor acaba, começa, ou nem nunca existiu sequer. 

É assim que o amor se mede. Não é com migalhas de atenção e de intimidade, de promessas e de pequeninos gestos que até o vizinho do quarto esquerdo faria por ti. 
Sim... lembras-te daquele vizinho que nem o nome dele sabes, mas que podes ir lá bater-lhe à porta quando te falta um pau de canela para a tua receita de leite creme? 

Nem precisas de lhe devolver o pau de canela porque um pau de  canela não lhe custa nada!

 Quando tu não custas nada a ninguém, não custas um pequeno medo,  não custas uma saudade, um frio na barriga, não custas o respeito, não vales uma mudança de mais de dez por cento daquela massa encefálica, não custas mais que um preço de bilhete de cinema, de um jantar naquele restaurante que foste a última a conhecer, quando a única coisa que podes custar é o facto de seres o arrependimento da vida de alguém... ou o facto de custares, um por um, todos os defeitos que tens em vez da mulher inteira que és.

Quando assim é, mete lá as variáveis na folha de excel e prevê o teu potencial de crescimento, prevê lá o teu lucro emocional acumulado.

Desculpa a minha brutalidade. 
Tu és feliz a encontrar, mas há quem só seja feliz a procurar. 
Amar é assim: 
encontrar alguém e não procurar por mais ninguém.

 Só aí terás o tamanho do Natal que disseram que ias ter um dia. 


A preguiça do engate!



No outro dia, num jantar de amigos, ele virou-se para ela e disse-lhe:

- Recebeste o meu email hoje?
- Qual email?
- Sobre aquele concerto que vamos ver no Sábado!
- Ah! Era isso?
- Era isso o quê?
- É que eu recebi um email teu, mas nem abri!
- Não abriste?
- Oh... Francisco... Eu estava no trabalho e tinha muitos emails para ler!

Haverá preguiça melhor que esta? A preguiça de não abrir o email do marido! 
Vamos lá reformular positivamente este pensamento. O que eu quero dizer é: 

tudo o resto era trabalho, menos ele! 

É que isto de andar em chats no WhatsApp, no Instagram e no Tinder a jogar ping pong com a gramática, numa competição sobre quem responde melhor, é uma canseira! Eu sempre digo que gostava de pertencer à geração anterior à minha, quando nada disto existia! De repente, recebo mensagens de amigos e de amigas com este tipo de dúvidas:

- O quê que lhe respondo? O quê que eu lhe escrevo depois desta mensagem que ele me enviou!?

 E ficamos ali a noite toda, tal como nas eleições, a decidir a resposta mais interessante e perspicaz e que estimule o desenvolvimento daquela conversa. Qualquer sugestão vai sempre a votos! Como se estivéssemos a escrever um guião e quatro ou cinco cérebros se reunissem numa sala para desenhar um diálogo que promova um encontro, uma reciprocidade, um namoro, um casamento, uma mesa de filhos e de netos...   

- Achas que acrescento um sorriso no fim? Um emoji? 
- Vê lá se tem erros.
- Se calhar respondo amanhã de manhã.
- E se fossemos ver o Instagram dele ou dela para adaptar a resposta ao copyright da vítima.
- Hum... Ele respondeu a esta rapariga... Vê lá se há likes e corações dele nas fotos dela.

Como se não bastasse, há também toda uma parte de pesquisa bibliográfica. Vamos ao google pesquisar aquele filme, aquela frase, aquele pensamento, aquele livro que eleve a nossa intelectualidade e nível de resposta.

Um amigo meu contava-me há uns tempos 

- Tivemos uma conversa mesmo interessante, falámos sobre livros e filmes... 
- Mas quais livros? Tu não lês! E só vês filmes de acção... 
- Oh Lili... Ela dizia o nome do livro e do filme e eu pesquisava mais ou menos o tema, a história... lia uns reviews e depois respondia com um tempero a meu gosto... Até parece que não me conheces!

Ao mesmo tempo que isto tudo me faz rir, também me dá algum sono. Eu prefiro a fase dos emails não lidos, não respondidos, das conversas penduradas ou em monossílabos...

- Jantas hoje?
- Sim
-Horas?
- 9
-----------------------------------

- Comprei um vestido?
- Mostra!
- Gostas?
- Não muito.
- Gosto eu.
-----------------------------------

- Tá insosso?
- Tá bom assim.
- Diz a verdade.
- Passa-me o sal!


Curiosamente, é na fase dos monossílabos que os casais geralmente dizem:

"Eu já não te posso ouvir!"

Tenho uma amiga que me responde assim em monossílabos e eu adora-a, porque ela acaba sempre a conversa com a frase:

- Desculpa se estou a ser rude!
-Porquê?
-Porque estou a responder muito rápido!
-Ao menos dizias "Bom dia!"
-Desculpa!
-Estou a brincar!

É isto.... 

time to say... 

Sempre preguiçosamente feliz no mundo dos chats e confiante que o problema se resolva sozinho.

*As fotos são de um catálogo que fiz para uma marca de Jóias, LORA London





Nem sempre migalhas é pão


Corria o ano de 1992 e uma das maiores frustrações da minha infância era ver os Jogos sem Fronteiras numa televisão a preto e branco. Tínhamos duas televisões lá em casa. A caixa preta, moderna e a cores que estava no quarto dos meus pais, e a outra, que estava na sala, forrada com madeira e face à qual, perder o relato do Eládio significava perder os homenzinhos verdes, pois naquela televisão paleolítica todos as bandeiras competiam em fato de treino ou fato latex cinzento. 

Penosas e educativas frustrações infantis. 
Levo-as para a vida. 
Quando íamos ao supermecado na altura do Natal - e em todos as alturas em geral - a instrução antes de sair de casa era sempre a mesma:

- Quando chegarmos à secção dos brinquedos, livra-te de te atirares para o chão a chorar. Vamos comprar necessidades, não vamos comprar brinquedos! 

Poder olhar, poder sonhar, mas não poder possuir.

Nem sei bem porquê que vos escrevo sobre isto, sobre frustrações, sobre a gestão emocional das minhas vontades frustradas. Tenho muita paciência. Dizem que está nos astros, sou Touro. Às vezes quase que espero por mim própria. 

Ao telefone com uma amiga, contava-lhe:

- Estou a chegar...  Estou na paragem sentada. Eles avisaram que ia haver greve dos transportes. Estou a chegar e cada vez mais demoro menos tempo a chegar a mim própria. Sabes, aquelas limpezas que fazemos na Páscoa? É mais ou menos isso. Há uma altura em que o touro bravo se lembra de virar a casa do avesso sem pedir ajuda a ninguém. Arrasta, levanta e muda a disposição de todos os móveis sozinho e, de repente, chegas e não reconheces aquele lugar. 

- Sei!  

Disse ela.

Nem sempre migalhas é pão como nos ensinam os nossos pais. A paciência de mendigar por coisas pequenas, por amores pequenos, por atenções pequenas. Essa paciência não vem e nem deve vir nos astros de ninguém. 

Não me vou atirar para o chão a chorar, mas acredito que nem todos os brinquedos sejam desejos, há brinquedos que viram necessidades também. A necessidade de recompensa por aquilo que lutamos, por aquilo que somos. Quando me cansava do Eládio a preto e branco,  lutava por um lugar na cama dos meus pais só para ver os Jogos sem Fronteiras a cores. Lá adormecia entre eles, de vez em quando.... muito de vez em quando.

Às vezes só temos de ensinar ao mundo como queremos ser tratados. 




Um Molho de Chaves de Mim



Sabes, hoje estava na estação de Oriente e lembrei-me que no regresso a casa passaria inevitavelmente pela dela. Decidi, então, mandar-lhe uma mensagem:

- Posso passar pela tua casa só para apanhar aquele livro que disseste que me ias emprestar!? Chego aí dentro de dez minutos, pode ser?
- Passa! 

À chegada, a porta quase que se abre sozinha. 

- Olha que isto está tudo desarrumado! Ficas para jantar!?
- Não posso, mas podemos lanchar!
- Vamos lá baixo comprar pão, então!
- Olha, tens um foguete na perna...
- Está calada! Quase que me esbardalhei toda ao bocado!
- Tu realmente não fechas bem a marmita!
- Olha... e o outro que te andava a bater o couro?
- Esquece, esse já bateu foi a caçoleta!


E é assim o meu "eu" ao pé dela. É assim que me sinto "eu" ao pé dela. O eu do improviso, das frases que não sei acabar, porque sou mais preguiçosa para falar do que para escrever, porque há amigos assim, que nos adivinham, que não reparam na forma como pegamos nos talheres ou como conjugamos os verbos; amigos que seguimos até à casa de banho só para não interromper a conversa sobre um furo qualquer que aconteceu numa meia (o tal foguete na perna); amigos que para além do livro, nos emprestam os rolos de papel higiénico para acabar de chorar o que não foi acabado quando a bateria do telefone morreu.

Mas não te assustes... 

Também sei ser actriz de novela e riscar do meu guião estas falas e todo o meu jeito censurado em horário nobre. Sei vestir o meu modelo Oscar de La Renta que comprei no AliExpress, sei relembrar e ensaiar aquele sorriso tímido que fazia quando ainda não conhecias o meu jargão ou as minhas palavras inflamadas que ouves no trânsito ou quando o tempero corre mal,  também sei fazer aquele scroll na app da CNN e desenrrascar-me quando me deixas sozinha em jantares de colarinho branco, não sei falar francês, mas sabes que sei tocar piano, sei despedir-me das mulheres que te cansaram a córnea a noite inteira - afinal a beleza não é um recurso limitado - e sei fingir que fico saciada com pouquinho, mas olhas para mim e sabes que o meu ar é de quem ainda tem aquele ratinho no estômago pronto para parar no Cais a caminho de casa... Sabes, se há roteiro que memorizei no teu GPS é o do pão com chouriço.

Às vezes pergunto-me qual a versão de mim que melhor conheces? 
Tu... os outros... 
No outro dia disseram-me: 

- Ias adorar conhecer a namorada do meu irmão!
- Então e porquê?
- Porque ela é assim como tu: destravada, divertida e não estás cá com m*rdas!  Vou perguntar-lhe se posso levar-te ao jantar hoje à noite.

Não me lembro da última vez que alguém me definiu assim. Divertida e destravada? Geralmente, sou calma, calada, pensativa... por aí... 
Incrível como diferentes pessoas nos conhecem e se lembram de nós de diferentes maneiras...  Como com uns podemos lanchar de improviso e com outros, temos de fazer a marcação inglesa com dois meses de antecedência.
É incrível notar os diferentes "eus" que vamos ensaiando na vida.

Incrível o quão poucos são os que nos conhecem de todas as maneiras e nos fazem sentir plenos e inteiros nestas esquizofrenias todas. 

Ainda não compreendi se guardas no bolso um molho de chaves de mim, ou apenas uma ou duas... 




Above the Clouds between London and Lisbon



Partially written during a flight in 2015

Airports. I love them.
 The feeling of endless possibilities, a portion of land that belongs to no one and to everyone, to nowhere and to everywhere, browsing books, creams, magazines while killing time waiting for my gate's number, wondering where people go and why and most of all, the adrenaline, the funny feeling in my stomach when we're about to take off.


They are asking us to put our devices in airplane mode. Time to take a break from my digital self. There's a gentlemen next to me, the business passenger type, and he already opened his laptop and set a whole office in his cramped airplane seat. 

Look at his fingers!  He types like crazy! Normally pianists play Liszt Transcendental Etude No.1 in fifty seconds. Well... Judging by the speed of his writing,  I bet he would play it in less than ten. Actually, what surprises me the most is the speed of his ideas, of his mind. 

I always dreamed of being the business passenger type who opens the laptop and gets sh*t done! But I get so sleepy after the take off!

 Between London and Lisbon, I do plan to have two or three very productive hours above the clouds but it never happens! 

I remember taking a flight to Porto and these two guys seated next to me ordered a bottle of wine and, kindly enough, offered me a glass or two (a9 am !!!!!). 


- Guys, I only start drinking wine past 10 am! But thank you very much!

They partied hard! Terrible neighbors! I slept anyway! I sleep over turbulence, over babies crying and over people kicking the back of my seat.

The gentleman keeps typing. I need to go to the toilet. That's exactly when I punish myself for keep buying the window seat. A friend of mine tells me the window seat is good for spotting UFOs during overnight flights. I honestly prefer to have free access to the corridor and to the toilet than spending my time waving at alien spaceships.

- It's time to rest those fingers Sir! Step aside: you, your whole office, your novel or whatever you're writing on that screen. I've been holding as much as I can to not interrupt your business but now it's time for me to do my business! And don't give me that look!

We'll be landing soon. People will be clapping soon too. 

- Oh no!!!! Clapping... no!!! 

Why do people clap on plane landings? 
They say airplanes are safer than cars but people never clap when they drive to work, to the supermarket, to Caparica (a portuguese beach). They never clap when they drive safe to their destinations. They never clap in buses either!!!!

We've just landed!

People are queueing to leave the plane. Everyone is on the phone at this point.

- Hey! I just landed! 
-Can you hear me!? Hey! Can you hear me? I landed! Where are you? Late? There's nothing sadder than having no one waiting for me at the airport. How dare you? 

I love airports. 
I really do.


© Chez Lili

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