Chez Lili

by Liliana Brandão

Na falta de vontade, lá escrevi...




No comboio, com a aproximação do Porto, parece que tudo se simplifica e que me aproximo de mim, da pessoa que verdadeiramente sou e que, muitas vezes, se foi perdendo, se foi desviando de si para poder pertencer a alguém, a um lugar qualquer, a dado momento ou a todo o momento, até. Perdoo-me porque estes desvios fazem parte do crescimento e do amadurecimento, da libertação e do desapego. Muitas vezes, enganei-me a pensar que estava bem resolvida com as minhas escolhas e com a minha solidão, mas imediatamente tentei compensar o vazio com pessoas que, afinal, me deixaram ainda mais descompensada.

Um desejo impossível? Diminuir o número de quilómetros entre Barcelos e Lisboa, entre a família e o trabalho, entre o passado e o presente. Apesar de ter muitos amigos em Lisboa, sei que na capital estou muito entregue a minha mesma.

Eu gosto da minha própria companhia. Divertirmo-nos e sabemos estar bem em silêncio, a convivência é boa no eventual tédio e na trivialidade dos dias. Mas, por vezes, discutimos e cansamo-nos de nos ver e ouvir. Eu e ela. Canso-me de mim. Convido, então, uma amiga para sair ou entrego-me para a adoção de famílias amigas que me recebem nas suas casas pombalinas para jantar, empresto-me para ver um filme e para ir ao teatro com elas. Sabe bem ser convidada para uma dinâmica familiar. Dá-me ordem e um pilar emocional, para depois voltar a um T0 ou a um quarto alugado, à solidão das rotinas, ao frigorífico meio vazio, àquela pequena lista de supermecado para uma alma só. 

Quem me conhece sabe bem como gosto de alimentar os outros,  como gosto de cozinhar e de usar isso como desculpa para ter pessoas à minha volta. Há coisas que só fazem sentido se forem partilhadas e, cozinhar é uma delas. Por isso, raramente cozinho apenas para mim. Quando não me esqueço, lá vou desenrrascando o meu almoço e o meu jantar sem grande entusiasmo. Nem sempre foi assim, mas, por acaso, tem acontecido com frequência. 

Como actriz ou como alguém que finge escrever umas coisas num blog ou uns guiões aqui e ali, lá vou imaginando essas pessoas, essa casa, essa mesa, a gestão dos conflitos, as refeições e as compras para cinco no supermecado. Sejam amigos, seja família... Imagino e escrevo a minha história em família ou rodeada de amigos numa casa pombalina, onde Barcelos fica ali mais ou menos perto de Odivelas e, a qualquer momento, a minha mãe também pode aparecer para dar uma ajudinha, para uma conversa, para me ajudar com as crianças (se as tivesse).

Acho que a ficção me alivia os sonhos mais ou menos frustrados.

Sabem, não me apetecia nada escrever hoje. Quando vou à Fnac e à Bertrand não faltam livros de receitas para a felicidade, livros de desenvolvimento pessoal e de auto-ajuda com instruções para nos motivarmos todos os dias, para sermos seres plenos, completos, felizes, realizados e independentes.

Depois, em vez de compararmos a nossa vida com a do vizinho, comparamos antes o nosso feed de Instagram com o de um estranho qualquer. Isso. O importante é que a nossa vida seja Instagrammable, que a nossa casa tenha aquele Danish look, que compremos um livro e uma planta só porque ficam bem na foto, que o nosso namorado seja Instagrammable também (já agora!).
 Contra mim falo que passo a vida a bisbilhotar o Instagram de estranhos.

Bem... foi a minha falta de vontade para escrever que curiosamente me levou a escrever. Neste blog os dias nem sempre são espectaculares. Não queria passar ao lado desta escrita a preto e branco, mais sombria, que vos conta que, às vezes, um dia pode ser simplesmente igual ao anterior, com as mesmas dúvidas, com os mesmos bloqueios, sem roupa nova, sem instruções para a felicidade, sem maquilhagem, sem viagens, sem orçamento até, sem prémios e galas, sem nada, sem nada interessante para contar.

São vários os dias em que prefiro adormecer os meus guardas e deixar que outros tomem conta de mim, porque não me sinto nem forte, nem independente, nem realizada e, nem me apetecesse focar-me assim tanto em mim como é tão imperativo nos dias de hoje. São dias em que me apetece ir ali jantar à casa dos meus pais sem que, para isso, precise de viajar cinco ou seis horas, apetece-me entrar em casa e jantar ao som de mil e uma histórias contadas à mesa, melhores que a história daquele livro que tenho para ler sozinha no meu sofá, num T0 pombalino.





A Spry e as pazes feitas com os leggings!

  

Estava na loja Spry no Centro Comercial Amoreiras e as palavras conforto, sofisticação e versatilidade ecoavam na minha cabeça à medida que ia descobrindo a linha de desporto da marca. Confesso que não costumo escrever sobre marcas e produtos. Quem me acompanha sabe que tenho escrito mais sobre relações, sobre pessoas, sobre o amor e a vida. Contudo, e à medida que conversava com Rita e com a Inês, as progenitoras deste projecto, tudo o que sentia em cada palavra e em cada silêncio era um profundo amor pela sua criação, pela marca, por este bebé que ainda há pouco nasceu e que já anda com passos bem firmes e equilibrados. 

O ponto de partida da Spry surgiu da lacuna sentida no mercado face à existência de uma linha de desporto que se adaptasse a diferentes contextos. A título de exemplo, cheguei à loja de calças de ganga e de blazer, com um top rosa acetinado e, depois de ter sido convidada para vestir algumas das peças da marca, acabei por vir embora sem me dar ao trabalho de trocar de roupa novamente. Vesti o meu blazer e lá fui eu, elegante, cool e prática, jantar com uns amigos, vestida com roupa de desporto!

Eu sou um poço de birra e de complicação quando preciso de comprar leggings, talvez porque as minhas pernas estão longe de ser dois alfinetes. Enfiar-me nuns leggings é ganhar consciência da quantidade e da gravidade de tudo o que enfio na boca. Abuso da genética, mas mesmo assim, alguma coisa vai sempre parar às coxas, ao rabo e às ancas. Desfilar de leggings pelo mundo  é quase como gostar de andar todos os dias num tribunal, num processo aberto contra mim própria. Como não gosto de confrontos, prefiro enganar-me até ao dia em que abrir, oficialmente, a época balnear! Nesse dia, lá enfrentarei o problema da gravidade dos brigadeiros. 

Sinto falta de Londres, por isso. Tenho saudades de comer scones e o English breakfast sem pensar na época balnear ou em preparar o corpo para o Verão... porque, simplesmente, não existe nem época balnear, nem Verão em Londres! 

Posto isto, meus amigos, os leggings não são apenas para mim,  que vai ao ginásio suar um bocadinho para aliviar o stress dos dias e que apenas vê o exercício como um escape, um escape para o bem-estar interior. 

Mas sabem qual foi a minha maior surpresa? Foi sentir uma verdadeira paz interior logo que me enfiei nos leggingda Spry! Que fique claro que ninguém está a pagar-me para escrever isto. Foi o que senti. Ponto. A confiança era tanta que saí da loja assim, de leggings e de blazer, convencida de que a época balnear podia abrir do dia seguinte, porque eu estava pronta! 

Conhecer a Rita e a Inês e conversar sobre a conceptualização da marca, sobre a vivência no Brasil e sobre a inspiração nesse mesmo mercado, sobre a escolha das cores, do design da roupa que é inteiramente confeccionada em Portugal - não tivéssemos nós uma das melhores indústrias têxteis do mundo - sobre a tecnologia antibateriana dos tecidos, essencial no controlo do suor e do odor...  conversar sobre tudo isto foi essencial para a imediata aproximação à marca. Sabem, eu fico sempre com um ratinho de curiosidade sobre os processos das coisas. Não me contento em ver os resultados, a roupa nas cruzetas, as fotografias nos catálogos... sempre me interessei pelo caminho e pelo tempo percorrido até à meta final. Interessa-me e inspira-me descobrir que a Rita e a Inês, formadas em farmácia e em engenharia, acabaram por arriscar na criação de algo relativamente longe da sua área de formação. É interessante conhecer este risco e o empreendedorismo de pessoas assim. É inspirador. Falo por mim que sempre me apeteceu criar tanta coisa, e aliar a arte da ideia, de criar à parte do negócio em si que chega às pessoas.

Visitem a Loja Spry no Amoreiras, aproveitam não só a coleção, mas as aulas de Yoga, Pilates, Postura e Alongamentos que o espaço oferece e deixem-se contagiar pela simpatia da Rita e da Ana. 

Um  abraço e obrigada por passarem pelo Chez Lili!















Sobre o final da etapa Jogo Duplo!




Não me defendo de nenhuma lágrima. Gosto de chorá-las todas, de lavar a confusão, os medos, as crises. Não choro em qualquer lado. Tenho moradas próprias: lugares, pessoas...

Mas às vezes não é bem assim.... 

Eram 7h55 quando entrei no estúdio e me sentei na sala de maquilhagem. No telemóvel da Vera - a nossa maquilhadora - tocava uma balada qualquer. Muito triste. Os meus olhos molharam-se depressa. A maquilhagem não ia correr bem naquele dia. 

- Desculpa Vera! 
- Eu já vos conheço. Vamos lá mudar de música. O que preferes?

Naquela fármacia musical lembrei-me que talvez um Jazz me faria bem, mas nada podia desligar a balada que continuava a tocar nos meus olhos.

 Ia despedir-me do Jogo Duplo, da Sílvia, daquela história, daquele hotel, da minha farda.

O Jogo Duplo não foi só uma novela. O Jogo Duplo representou uma mudança de vida, de pilares, uma reconstrução interior.

 A profissão de actor traz juros bem altos. É assim. Não vale a pena explicar.

Queremos clareza, queremos normalidade, queremos sentir um certo aborrecimento, até. Somos seres de hábitos e não de mudanças. Ser actor é desafiar a ordem natural das coisas. É sermos seres de mudanças de não de hábitos! 

Foi emergente aprender a abraçar o caos e a chorar mais do que normalmente choraria. Se é para sentir, então que seja! Sempre acreditei que um dia mau não pode significar uma sucessão de dias péssimos, por isso, olhava para trás muitas vezes e pensava nos momentos de crise que atravessei e como tudo se foi resolvendo, mesmo sem respostas, sem cábulas, sem estar preparada para o teste surpresa de todos os dias. 

Avanço para novas aventuras mais segura, mais forte, mais arrumada emocionalmente, mais assertiva e focada, mas confiante de que vou sempre preservar a minha essência. 

....... 

Levo comigo os aconselhamentos do nosso director de actores, o João Pedreiro, as palavras experientes do nosso Nuno Homem de Sá, levo a escrita liderada pelo Artur Ribeiro que deu uma aresta à Sílvia para ter a sua história, levo a atenção do Roberto, o nosso assistente de realização, levo a boa disposição do Galamba que passou os meses inteiros a filmar atrás de mim, por cima do meu ombro, levo a doçura da Filipa, levo a equipa de produção e de realização, a equipa de maquilhagem e de cabelos, a equipa do guarda roupa, levo o elenco todo, sobretudo o João de Brito e o Eurico Lopes, os meus parceiros de amor e de desamor, respectivamente! Levo a TVI e a Plural pela oportunidade que me deram, levo a Griffe hairstyle e sobretudo a Sónia por ter cuidado do meu cabelo entre brincadeiras e conversas sobre a vida, levo a Amour Glamour por me ter vestido para a gala das Estrelas, levo a minha agência, Layjan, sobretudo a Mariana, a Bárbara, a Cristina e a Sandra que, do Porto, me ligam e dizem:

"Sempre que subires uma escada, olha para trás de vez em quando, para confirmares que os degraus que te ajudaram a subir ainda estão lá todos... é que eles vão fazer-te falta se precisares de descer um dia!" 

:=)

Obrigada a todos. 





























Filmes mudos da vida real



A primeira coisa que eu faço quando ouço uma história é desconstruí-la! Há engenheiros de histórias incríveis por aí fora. Eu sou actriz e adoro um bom conflito, uma boa trama, mas tenho este advogado de vigilância que brinca ao meu ouvido, dizendo: 

- Inverte o que te disseram! Questiona! Não decores esse guião. Acreditas em tudo o que te dizem? Não sejas burra! 

Isto vale para tudo. O advogada farta-se de trabalhar sobretudo quando a história começa com a frase: 

"Diz que disse...."

Eu adoro palavras, brincar com elas, escrevê-las, mas também gosto de calá-las. Facilmente as palavras nos roubam o descanso. O escritor Javier Marias diz-nos mais ou menos assim: " cuidado com o que dizes e a quem dizes e cuidado com a fase de vida daqueles a quem contas a tua história." Põe a mão na água. Vê se está morna. Podes receber uma resposta carregada de emoções que não esperavas e que nem pediste. Podes receber a mesma história misturada com outras que nem conhecias, que nem te interessam e que só te vão confundir. 

Cala-te. 

Silêncio. Gosto tanto daqueles que me sabem ler no silêncio. No silêncio que juntos respiramos e naquele... no outro... no digital... no das mensagens, dos comentários, dos likes... 

À excepção das histórias de ficção onde raramente alguém se cala e onde todos se embrulham num diz que disse... À excepção dessas, prefiro os filmes mudos da vida real. 







Confusão de semifusas reais e de ficção....




Falava sobre a minha personagem, a Sílvia, na novela Jogo Duplo e ocorreu-me este pensamento.

- Aceito papéis mais pequenos na ficção, mas não na realidade!

Sabem quando somos pequenos e figurantes na vida de alguém? Nem merecemos uma queixa na polícia se formos roubados dessa mesma vida. E mesmo com a participação do roubo, seremos definidos como um "furto bagatela", excluído, como tal, de tipicidade penal, dizem eles. 


Na ficção é diferente..

Na ficção namoras com câmeras, com tábuas de palco, com pontas soltas de texto, com silêncios. Silêncios um dia interrompidos por  cérebros, que no seu sono R.E.M,  escrevem mais meia dúzia de pontas...  

Cada vez melhores. Cada vez maiores. 

E a história desenvolve. 
O figurante cresce. 
A câmera fica ali mais dois segundos de tempo nacional. 
Dás o teu melhor silêncio. 
Ouves e cumpres.
 Choras, mas em casa. 
Calas-te. 
Fazes uma dieta de palavras, de palpites, de graças, de opiniões. 
Foi um conselho. Bom conselho
Ouves e cumpres outra vez. 
Esqueces o talento. 
Esqueces o que mereces. 
Não mereces nada. 
A vida não te deve nada. 
Nadinha. 
Embrulhas a lógica do merecimento e do talento. 
Trabalhas a ponta. 
Mais que Shakespeare. 
Porque é um nada que para ti vale tudo. 
E vê-se. Sente-se mais. 
A paixão contida. 
O perigo de abanar o espumante. 
Está ali. Dentro de ti. 
Andas à chuva de um grande temporal.
 O teu temporal. 
Finges que não. 
Que faz bom tempo. 
Choras mais. Em casa.
É sanguíneo. 
É honesto. 


Na ficção nenhum papel é bagatela. Vou à polícia e faço queixa. Vamos a tribunal.
 Posso amar só e fico bem. 
Não preciso da reciprocidade de ninguém. 

Nas histórias reais... ponta solta és, ponta solta serás. Mesmo que o contracto seja bom. Lê bem as letras miúdas do que assinas. 
Lê bem se vais ganhar apenas uma troca de tempos curtos. De semifusas. 1/64 é o valor do tempo de uma semifusa. Está lá escrito. Nem precisas de saber nada de música. Decora esse valor.

Não assines.

Vai ser maior que pequena, vai valer mais que 0.015625 do tempo de alguém. Vai ser protagonista de uma série que não tem prazo de validade. É possível. Anos e anos de escrita diária. 

 Mais ou menos como dizia aquele professor de piano... 

- Concentra-te e começa. No momento que começares, já não podes parar!

(Passados segundos ou minutos... )

Já me arrependi de ter começado. Preciso de parar.   Isto está uma porcaria.

-Não recomeces! Não pares...  Continua... Toca... Acaba... Aguenta até ao fim! 

....

Não contra argumentes. Não vale a pena. Pela tua cara já percebi tudo...
Tens razão. 
Eu sei que não aguentarias ouvir três andamentos de uma sonata mal tocada até ao fim.
Eu sei que há 0.015625 de tempo que valem mais que o tempo todo...  



Afinal assinaste, não foi?








"A linha fantasma" e o desafio da convivência





No filme "A Linha Fantasma", Daniel Day-Lewis interpreta o papel de Reynolds Woodcock, um criador de alta costura de temperamento peculiar e difícil, profundamente obcecado pela sua arte, pelo seu trabalho e pela perfeição. Reynolds conhece Alma, personagem interpretada por Vicky Krieps, com quem desenvolve um romance que vai acabar por desafiar o artista na sua excessiva ordem e temperamento.

Apesar de ter escrito a palavra romance, a relação entre Reynolds e Alma era tudo menos uma relação de amor romântico. Alma era importante na vida do artista, mas a sua importância era secundária, a sua existência era necessariamente desfocada para que não interferisse com o único e verdadeiro amor da sua vida: o amor pela arte.

Cansada de ser um fantasma naquela casa de bonecas e vestidos, Alma decide envenenar Reynolds com uma poção de cogumelos. Astuta o suficiente para não o matar, mas para o colocar apenas numa situação de profunda fragilidade, dor e dependência, Alma consegue assim desarmar Reynolds das suas obsessões, do seu génio difícil para sentir-se, por momentos, próxima dele afectivamente.

Aquando da sua recuperação, Reynolds pede Alma em casamento, reconhecendo assim todo o amor e apoio que esta lhe deu quando estava doente.

O melhor do casamento foi mesmo o próprio pedido! Escusado será dizer que o marido, pouco tempo depois, começou a moer-lhe a cabeça outra vez. Reynolds voltou a si mesmo, ao seu rigor, ao seu isolamento e distanciamento emocional em prol do amor pelo seu trabalho.
Frustrada, Alma volta a envenená-lo. 
A surpresa acontece quando ele próprio descobre que está a ser envenenado e.... Aceita! 

Como Reynolds não se autoriza a descansar, aquele veneno surge como uma droga que ele, voluntariamente, não seria capaz de tomar e que lhe permite desligar-se da sua obsessão pela arte da alta costura. 
Freud dizia que precisamos de amar para não adoecer, mas Reynolds precisava de adoecer para se deixar amar e ser amado, muito além da sua obra. 

Isto é tudo muito poético e bonito, mas a minha única dúvida é?

- Onde é que se apanham cogumelos daqueles? 
Monsanto? 

Há vivências com certas pessoas que são incríveis e há convivências com essas mesmas pessoas que podem ser verdadeiros pesadelos.

 De repente, lembrei-me de um namorado meu que, ao saber que eu gostava de nadar, surpreendeu-me dentro da piscina de touca azul.

-Surpresa!
- O que é que estás aqui a fazer?
- Vim fazer-te companhia!
- Mas eu vou nadar 45 minutos sem parar!

Confesso-vos que me senti como o Reynolds, como se a minha ordem naquele dia tivesse sido interrompida. Lembro-me de sentir uma certa inquietação por ter de partilhar algo que ansiava fazer na paz do senhor. Se fosse um estranho, talvez eu não me importasse de partilhar a pista com ele, mas como era o meu namorado, sentia a obrigação de lhe fazer companhia nas pausas entre o Crawl e a Mariposa.

Estranho desabafo, eu sei...  

O Reynolds era estilista. Eu cá sou actriz e gosto de escrever. Escrevo muito e, às vezes, o simples facto de estar a olhar para uma folha em branco ou para o ecrã do meu computador sem escrever absolutamente nada, não significa que estou a fazer nada e que, por isso, possa ser interrompida ou desafiada para fazer algo mais divertido, ou possa ser acusada de estar a procrastinar.  

"Eu não gosto de confrontos!" 
exclamou o artista, no filme.

Para confrontos, já bastam os nossos próprios pensamentos, a nossa imaginação. 

Conviver com alguém - sobretudo conviver com alguém que é artista - é aprender estes tempos e estas dinâmicas e não interromper compassos inteiros de silêncio, pausas de semibreve, pausas longas, íntimas, de angústia, de pensamento, ou de nada! 

Li recentemente um artigo no qual um escritor dizia algo assim...

- We fall in love with people we find inspiring. If you don't set my pen on fire, how are you going to set my bed on fire?

 Os confrontos não inspiram ninguém. O psiquiatra José Gameiro adverte sempre para o cuidado que devemos ter com a crítica na dinâmica conjugal, quando acusamos e criticamos o outro à medida que vamos descobrindo as nossas diferenças e o que nos afasta daqueles que amamos. 

O Reynolds não gostava de espargos com manteiga e eu gosto de nadar e de escrever sozinha, gosto de tomar o meu café bem quente, não gosto de ver loiça acumulada na pia, como de tudo mas não gosto que venham para o pé de mim dar palpites sobre a forma como cozinho, não gosto de conversar muito sobre o meu trabalho como actriz, não gosto que me apressem, tenho uma pequena obsessão por varrer e aspirar o chão (talvez porque ando sempre descalça), gosto de arrumar a cozinha antes de começar a comer e, por isso, como sempre a comida já fria, falo imenso durante o sono...  e não gosto de tomar o meu pequeno almoço de pijama... 

Contudo, artistas como o Reynolds são sempre acusados de narcisismo, de ter um temperamento complicado, mas serei eu a única a achar que a maior alienação acontece quando nos tornamos como a Alma, quando queremos envenenar alguém porque estamos cansados de "jogar xadrez" com pessoas assim? 

A convivência não é fácil, mas não é obrigatória; não tem de ser nem forçada ou mendigada. A convivência pode ser negociada dentro do possível e se não for possível, porquê perpetuar uma relação até ao banco dos réus? 

Porquê? 

 Eu compreendo a obsessão do artista pela sua obra, mas compreendo menos a obsessão de alguém como a Alma pelo seu artista, que aceita anular-se e ser profundamente infeliz e desamada na sua verdadeira natureza para encaixar no estilo e ordem de vida de Reynolds.  Achei toda aquela relação uma verdadeira doença, onde as únicas mudanças na personagem e no romance com Alma são induzidas por envenenamento com cogumelos mágicos.


José Gameiro já nos diz:

"Casamos com um cabaz de Natal: à frente vemos o caviar e o champanhe e atrás estão a latas de sardinha e de atum."










Sobre a felicidade.



Hoje deixo-vos aqui um breve pensamento. Algo que já tinha escrito uma vez. Se lerem os posts anteriores, talvez encontrem esta ponta solta algures. Há pontas soltas que merecem parágrafos e livros inteiros. Esta é uma delas. 

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Quando tinha dezoito anos gastei a maior parte das minhas poupanças num aparelho dentário, apesar do meu pai me ter tentado convencer que o meu sorriso tinha charme assim, todo torto! Recentemente, encontrei umas fotografias minhas de um fase particularmente feliz da minha vida. O que denuncia essa felicidade não é a memória que tenho daquele momento, nem o meu sorriso de três mil euros que se vê nas fotos... 

É algo mais...

Não há conta poupança, não há aparelho que corrija aquilo que nos vai na alma e que se rasga no olhar. Isso. Bela plenitude sentida no rosto rasgado, numa sentença aberta a todas as minhas rugas. Não me importava de envelhecer tudo de uma vez se pudesse perpetuar até hoje e para sempre aquele momento. 

Sabem, chego a questionar se seria funcional viver todos os dias assim. 
Estou a lembrar-me de um texto que li recentemente. Duas mães observam os filhos a brincar e a dada altura uma delas questiona: 

- Não achas que o meu filho é demasiado feliz?
- Como assim?
- Claro que eu faço tudo para que ele seja feliz, mas como eu cresci pobre - e agora pertenço à classe média-alta -  às vezes temo não estar a prepará-lo para o mundo real! 
(I don't know how to raise a middle class kid - she said!)

Desenvolver esta conversa seria entrar numa discussão sobre, por exemplo, a relação entre a ansiedade e a condição socioeconómica na educação das crianças. Talvez esta seja uma nova ponta solta a ser esmiuçada num próximo post.  

Por agora, o que me inquieta é a nossa incrível capacidade para sabotar a nossa própria felicidade. Inquietam-me as nossas internas câmeras de vigilância e o facto de a tragédia ser tão nuclear em nós.

Olho para aquela fotografia e penso:

- Antes que me assaltem, eu mesma vou perder aquele momento. Eu mesma vou desaparecer da festa mais cedo, nem me vou despedir de ninguém, vou embora sem avisar para não correr o risco de já não me lembrar onde moro no fim.

Compramos aparelhos de centenas que nos ajudam a sorrir melhor, compramos viagens, livros, aventuras, casas, carros, experiências de todo o tipo, mas sabotamos o que nos rasga gratuitamente o olhar com complicações e medos.

Não aceitamos a felicidade como algo passivo, algo que flui naturalmente. Precisamos de ajuizá-la para sentir uma certa autoridade sobre ela.

Acreditamos que não podemos ser e estar felizes, mas precisamos de fazer algo para sermos felizes; acreditamos que estamos sempre destinados a possibilidades de felicidade mais elevadas. 

A melhor virtude passa pelo diálogo e pela discussão dessas possibilidades. 
Contudo, parece-me que o pior vício é exactamente o contrário, é não poder discutir nenhuma possibilidade, sobretudo quando as partes que escolhemos para discutir e para stressar o todo - aquele todo que tão plenamente flui -  essas partes são as mais
insignificantes. 

Continuo a olhar para a fotografia e, num remate final, questiono-me:

que tipo de Homem queremos ser no assalto ao meu próprio bem-estar: um Homem virtuoso ou um Homem de vícios?

......










© Chez Lili

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