Chez Lili

by Liliana Brandão

Vou ali e já venho - Richmond Park






O líder dos oito parques reais é o Richmond Park. Lidera pela beleza selvagem, pela extensão de aproximadamente mil hectares - a triplicar o tamanho do conhecido Central Park em Nova Iorque - lidera por ser a casa de 650 veados que são a maior atração do parque, lidera por guardar o mágico jardim botânico conhecido como Isabella Plantation.

Não devem faltar muitos anos até eu decidir regressar ao campo de uma vez por todas. O melhor de Londres é sentir aquela estranha sensação de estar numa das cidades mais movimentadas do mundo, mas a poucas paragens de metro de bairros e de zonas residenciais que primam por uma atmosfera familiar, de tranquilidade e de silêncio, como acontece em Richmond e em Putney

Deixo-vos aqui uns momentos captados no Richmond Park. Levem um livro, uma manta, umas sandes e fruta, levem uma bicicleta, levem o vosso labrador, levem os vossos patudos soltos e felizes, calcem as vossas wellies e preparem os pulmões para respirar o maior parque de Londres.

Até já!

































Recomeços



Quando o mais fácil é que tudo permaneça igual a ontem, a vida empurra-nos desse penhasco da mudança. Quando a confusão nos paralisa o melhor é mesmo aceitar a paralisia por uns tempos. Quase como um automóvel com a direção desalinhada que naturalmente se desvia para um dos lados.  É uma técnica que funciona comigo. Dar ao tempo e ao silêncio a responsabilidade de me explicarem para que lado o meu "eu" desalinhado se desvia naturalmente. Depois tento contrariar a resposta e a direção natural das coisas, num processo de auto sabotagem consciente e deliberado que vai intensificar o mal-estar, um certo desgaste fisico e emocional levando assim à confirmação e à aceitação do caminho inevitável. Às vezes não se trata de começar um novo capítulo, mas sim de começar um livro completamente diferente. 

Setembro é o mês dos recomeços e eu espero partilhá-los aqui. 

Por Londres vive-se um Agosto fingido de Outubro, já há noites em que se resgata o edredom das arrumações de Inverno, já levo à rua aquela parka verde que nem me lembrava que tinha, já caminho sobre folhas caídas enquanto seguro a bebida de sempre:

Soya cappuccino with vanilla syrup, please!" 

e lá sigo a imaginar que sou protagonista de um remake do Husbands and Wives do Woody Allen - só que não.

Um abraço e até breve.

















Será que os opostos se atraem?

Fotografia de Pedro Capelas : @pedro.capelas.fotografia


Encontrei uns apontamentos dos tempos de faculdade sobre terapia familiar, sobre o ciclo vital da família e, se na altura esperava até à véspera do exame para estudar estes temas, dei por mim a lê-los com entusiasmo, a folhear e a relembrar tudo com alguma saudade e, sobretudo, com mais empatia, experiência e facilidade - afinal, já lá vão quase dez anos. 

São muitas as passagens destacadas a marcador, mas a que vou partilhar é da autoria de Robin Skinner, o conhecido psicoterapeuta do actor John Cleese - a título de curiosidade, Skinner e Cleese chegaram mesmo a publicar um livro em conjunto: "Families and how to survive them."

Robin Skinner estudou as razões que levam as pessoas a escolher-se mutuamente. 

Porque razão casei contigo? 

Skinner responde a esta pergunta de uma forma simples e directa: 

"A razão porque nos sentimos profundamente atraídos por alguém é, basicamente, porque eles são como nós, num sentido psicológico." 

Esta conclusão parece desafiar o ditado que diz que os opostos se atraem. Skinner insiste na sua conclusão, completando-a: 

"Se isso acontece é porque parecem opostos, mas o que faz com que as pessoas se aproximem, são as suas semelhanças. Para que essas semelhanças sejam mutuamente descobertas não é necessário que as pessoas falem sobre elas, pois todos emitem sinais que, mesmo sem serem compreendidos, são sentidos e entendidos pelo outro."

Ana Paula Relvas, psicóloga e autora do livro O Ciclo Vital da Família diz-nos: 

"para alguns autores é ponto assente que sem o mínimo de aspectos psíquicos comuns subjacentes à relação entre dois seres esta não se poderá manter, uma vez que não haverá possibilidade de, verdadeiramente, compreender e ser compreendido. Se grande número de divórcios tem como justificação a incompatibilidade entre os parceiros na relação, não se pode concluir que, se os sujeitos são demasiados parecidos, a união está destinada ao fracasso."

Quando nos atraímos por alguém muito diferente daquilo somos, talvez devemos questionar a nossa própria auto-estima. Como é que nos podemos apaixonar por alguém semelhante a nós, se nós próprios não gostamos de nós? A propósito, o Woody Allen inicia o filme Annie Hall com a famosa expressão de Groucho Marx: 

"não quero pertencer a nenhum clube que aceite como membros pessoas como eu!"

As diferenças podem ser atraentes numa fase inicial e podem desafiar-nos, mas com o tempo tendem a desgastar a relação. Ao contrário, os gémeos psíquicos entendem-se, elevam-se e a relação flui sem tanto esforço.











O Poder Pessoal e a Arte de nos Relacionarmos com os Outros



Choca-me, zanga-me, dilacera-me a alma, dá-me cabo dos nervos e traz os termos mais obscenos à tona do meu léxico sentir a perda do poder pessoal de alguém, sobretudo face a uma situação de rejeição.

- O que é que eu fiz? Onde é que eu errei? Eu não mereço. Ninguém gosta de mim. Porquê que este padrão continua a repetir-se na minha vida? Porquê que só consigo atrair cafajestes e desclassificados? Porquê ela e não eu? 

É preciso resgatarmo-nos imediatamente de um discurso assim, carregado de culpa e soluçado na primeira pessoa. 

Porquê que insistimos em quem não nos faz cafuné, em quem desaparece sem se despedir e sem sequer agradecer o nosso colo, o nosso cuidado, o nosso abraço, a nossa entrega e a pessoa inteira que somos?

Não te percas de ti. Sê a tua prioridade. Toma uma atitude. Pára de internalizar o abandono, o medo. Resgata-te. Se o outro decidiu partir, respeita a partida. Quem sabe ele ou ela não será o vínculo para uma outra chegada. Quase sempre é.

 O relacionamento é uma arte, a arte de estar com o outro. Existem os génios e os burlões de sentimentos. Existem ainda os génios que não se aplicam e que caminham ao lado de grandes carreiras porque simplesmente não querem trabalhar. Parece-me que é por isso 
que por vezes nos sentimos burlados, mas até foi verdadeiro, sincero, sentido e profundo. 

Estou a lembrar-me do meu professor de piano que me disse um dia:

- Liliana, se quiseres mesmo tocar e caminhar para o ensino superior, tu consegues. Tens de trabalhar mais, muito mais, tens de tocar todos os dias...  A sensibilidade não chega, precisas de mais técnica, rapidez, precisão.

Uma semana depois, encontrámo-nos na sala de aula de sempre.

- Já decidiste? 
- Já.
- E então?
- Eu adoro o piano, mas não consigo comprometer-me. Ele exige cinco horas de prática diária, ou até mais. Tenho outras paixões. Gosto de representar, de escrever, gosto de psicologia. O piano precisa de mim todos os dias e exige que me feche numa sala durante horas e horas quando o que eu quero e preciso neste momento é de estar lá fora, de viver e de experimentar outros desafios. Resumindo, fico por aqui...

Quando alguém não quer estar mais connosco, isso não significa que fomos burlados e que foi tudo um engano ou uma mentira, que não somos merecedores de uma obra de valor. Significa apenas que não conseguimos comprometermo-nos com a arte de nos relacionarmos com o outro naquele momento. 

É tão bonito quando duas liberdades se encaixam. Imagina um concerto, imagina a partitura e o encaixe dos instrumentos... Convida para o teu concerto quem consiga primeiro aprender o seu instrumento e a sua melodia sozinho. Se essa pessoa não conseguir ou não tiver paciência, tu podes agradecer o adeus, pois não precisas de ninguém que não consiga acompanhar a tua melodia. 

E quanto a mim? Não valerá a pena perguntar se eu própria já aprendi a minha melodia? Se calhar ainda não. Se calhar ainda não estou nem segura e nem confiante e ainda tenho muitos compassos por resolver sozinha. É importante ser realista e menos emocional. O amor não funciona sozinho. Precisa de combustível e esse combustível compreende muitas variáveis: o estilo de vida, as famílias de origem, o trabalho, a liberdade emocional e até financeira de cada um, os objectivos de vida... Parece complicado, mas é mais simples do que parece. A simplicidade de ter uma atitude, amor próprio e desapego e de resistirmos à questão: porquê que a relação do vizinho resulta e a minha não? 

Se ao menos as paredes do vizinho falassem.... 



Um abraço, 

Lili




A metade da laranja e o testo da panela...



"Um dia vais encontrar um testo para a tua panela."
"Vais ver que vais encontrar a outra metade da tua laranja."

Parece-me que este é um erro comum na educação das crianças e que depois se perpetua nas conversas que vamos tendo pela vida fora: a mensagem de que anda por aí uma alma gémea perdida que nos completa. Existem sete biliões de almas no mundo e a nossa missão é acreditar que um dia encontraremos a outra metade da nossa laranja ou o testo da nossa panela. 

Em vez disso, que tal ensinar-lhes a arte de ser inteiros, independentes e felizes sozinhos? Um ser inteiro relaciona-se com outro ser inteiro. Ninguém completa ninguém, ninguém é a alma gêmea de ninguém. Que tal ensinar-lhes a arte da autossuficiência?

Vamos parar de procurar o testo da nossa panela, vamos parar de procurar a metade da nossa laranja e vamos, em vez disso, aprender a ser panelas e laranjas inteiras que se relacionam com outras panelas e com outras laranjas inteiras.

Li algures que a interdependência só funciona quando as pessoas envolvidas conseguem funcionar de forma independente. Acho que vai valer a pena pensar nisto, pela saúde no modo como nos relacionamos uns com os outros e acima de tudo pela nossa felicidade pessoal. 

......

Pela partilha de felicidades e não pela procura de uma só.

Abraço, 

Lili


fotos de Pedro Mendonça










Um Breve Apontamento sobre Implosões e Explosões


Sabem quando estamos a conduzir, entramos num túnel e, de repente, o nosso GPS perde o sinal?

"GPS signal lost"

Perdemos o sinal, a direcção e percebemos que, na escuridão daquele túnel, o único satélite capaz de encontrar o receptor do nosso GPS está dentro de nós.

É bom voltarmo-nos para dentro, descer até a um andar profundo, ao qual nenhuma escada e elevador parecem chegar. Uma espécie de cave do "eu". Subimos e descemos entre o sótão do pensamento e uma cave de tralha que quase nunca arrumamos. Os convidados chegam e elogiam as velas perfumadas, a decoração e o cheiro a bolo de canela acabado de fazer, mas só nós conhecemos o desconcerto de todas as coisas que atiramos para aqueles lugares. 

 Sempre me educaram para nunca perder a diplomacia, a elegância, a educação, a postura, sempre me educaram para reconciliar em vez de desarmonizar e contrariar, é assim que quero um dia educar os meus filhos. No entanto, quando se evita uma explosão estamos muitas vezes a promover uma implosão. As implosões desintegram-nos levando, com o tempo, à demolição silenciosamente do "eu". Ao protegermos os outros dos efeitos colaterais das nossas explosões estamos, nós próprios, a sofrê-los um por um e a perder, lentamente, o nosso sinal de GPS, um sinal que se perde no meio de mais tralha que continuamos a acumular.


As fotos com o vestido de princesa parecem não combinar com o tom do texto ou, se calhar, até combinam. Como me disseram uma vez: tira a coroa de princesa e coloca a armadura antes que percas o teu terreno.

Abraço, Lili!


Fotografia: Pedro Mendonça
Vestido: Penhalta













© Chez Lili

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