Chez Lili

by Liliana Brandão

Afinal vamos todos andando...




Obrigada pela fotografia, vou publicá-la no blog.”

Fotografias bonitas, onde acho que estou bem iluminada, bem maquilhada, bem enquadrada. Fotografias que podiam ser uma bela ilustração para um molho de palavras soltas e tristes. As palavras aqui são sempre contentores de muita consciência e de sofrimento ao ponto de me perguntarem se está tudo bem. 

Estou. 

Apesar de ter um nome pop, o Chez Lili não é um pop blog de receitas de auto-ajuda. Pelo menos não tem sido. É um blog de viagens onde sou correspondente das inquietações emergentes em lugares que estão em pleno estado de sítio. Um jornalismo de guerra, do conflito da nosso psique. Escrever aqui, viajar até lá sem saber muito bem como é que vou voltar. Voltar às rotinas dos dias onde vamos com os nossos cansaços e humores, sonhos frustrados e noites mal dormidas magoando um bocadinho e sem querer aqueles que nos rodeiam através de um meio tom de voz que sobe de repente, uma desculpa que fica por pedir, emaranhada de orgulho e culpa, uma musicalidade sarcástica no próprio silêncio.
A maior parte das pessoas que eu conheço não está bem e nem está mal. A maior parte das pessoas que eu conheço “vai andando...” independentemente do nível sócio-económico, do género, do estado civil, da profissão, do poder da conta bancária. E a vida continua na esperança de que, de hora em hora, as coisas melhorem. 

............

Conversámos e eu voltei para o meu carro. Vou conduzindo e pensando:

Como eu adorava acordar naquela casa, naquele quarto de catálogo, jantar assim rodeada de pessoas, ficar sossegada no meu canto, nas minhas coisas, numa solidão desejada, mas sabotada e disfarçada, porque pelas outras divisões, há uma continuidade da minha existência, da existência de todos, um pequeno ruído que nos faz companhia.”

Enquanto conduzia concluí o quanto o meu “quem me dera” se transformou na inquietação de alguém. E vamos vivendo na fantasia de podermos trocar de vidas entre nós, de vez em quando ou, quem sabe, para sempre, sem sabermos que no fundo “lá vamos todos andando...”

Talvez por isso, as trocas de vida fossem dar quase todas quase ao mesmo.

Um abraço!


Vou ali e já venho - Richmond Park






O líder dos oito parques reais é o Richmond Park. Lidera pela beleza selvagem, pela extensão de aproximadamente mil hectares - a triplicar o tamanho do conhecido Central Park em Nova Iorque - lidera por ser a casa de 650 veados que são a maior atração do parque, lidera por guardar o mágico jardim botânico conhecido como Isabella Plantation.

Não devem faltar muitos anos até eu decidir regressar ao campo de uma vez por todas. O melhor de Londres é sentir aquela estranha sensação de estar numa das cidades mais movimentadas do mundo, mas a poucas paragens de metro de bairros e de zonas residenciais que primam por uma atmosfera familiar, de tranquilidade e de silêncio, como acontece em Richmond e em Putney

Deixo-vos aqui uns momentos captados no Richmond Park. Levem um livro, uma manta, umas sandes e fruta, levem uma bicicleta, levem o vosso labrador, levem os vossos patudos soltos e felizes, calcem as vossas wellies e preparem os pulmões para respirar o maior parque de Londres.

Até já!

































Recomeços



Quando o mais fácil é que tudo permaneça igual a ontem, a vida empurra-nos desse penhasco da mudança. Quando a confusão nos paralisa o melhor é mesmo aceitar a paralisia por uns tempos. Quase como um automóvel com a direção desalinhada que naturalmente se desvia para um dos lados.  É uma técnica que funciona comigo. Dar ao tempo e ao silêncio a responsabilidade de me explicarem para que lado o meu "eu" desalinhado se desvia naturalmente. Depois tento contrariar a resposta e a direção natural das coisas, num processo de auto sabotagem consciente e deliberado que vai intensificar o mal-estar, um certo desgaste fisico e emocional levando assim à confirmação e à aceitação do caminho inevitável. Às vezes não se trata de começar um novo capítulo, mas sim de começar um livro completamente diferente. 

Setembro é o mês dos recomeços e eu espero partilhá-los aqui. 

Por Londres vive-se um Agosto fingido de Outubro, já há noites em que se resgata o edredom das arrumações de Inverno, já levo à rua aquela parka verde que nem me lembrava que tinha, já caminho sobre folhas caídas enquanto seguro a bebida de sempre:

Soya cappuccino with vanilla syrup, please!" 

e lá sigo a imaginar que sou protagonista de um remake do Husbands and Wives do Woody Allen - só que não.

Um abraço e até breve.

















Será que os opostos se atraem?

Fotografia de Pedro Capelas : @pedro.capelas.fotografia


Encontrei uns apontamentos dos tempos de faculdade sobre terapia familiar, sobre o ciclo vital da família e, se na altura esperava até à véspera do exame para estudar estes temas, dei por mim a lê-los com entusiasmo, a folhear e a relembrar tudo com alguma saudade e, sobretudo, com mais empatia, experiência e facilidade - afinal, já lá vão quase dez anos. 

São muitas as passagens destacadas a marcador, mas a que vou partilhar é da autoria de Robin Skinner, o conhecido psicoterapeuta do actor John Cleese - a título de curiosidade, Skinner e Cleese chegaram mesmo a publicar um livro em conjunto: "Families and how to survive them."

Robin Skinner estudou as razões que levam as pessoas a escolher-se mutuamente. 

Porque razão casei contigo? 

Skinner responde a esta pergunta de uma forma simples e directa: 

"A razão porque nos sentimos profundamente atraídos por alguém é, basicamente, porque eles são como nós, num sentido psicológico." 

Esta conclusão parece desafiar o ditado que diz que os opostos se atraem. Skinner insiste na sua conclusão, completando-a: 

"Se isso acontece é porque parecem opostos, mas o que faz com que as pessoas se aproximem, são as suas semelhanças. Para que essas semelhanças sejam mutuamente descobertas não é necessário que as pessoas falem sobre elas, pois todos emitem sinais que, mesmo sem serem compreendidos, são sentidos e entendidos pelo outro."

Ana Paula Relvas, psicóloga e autora do livro O Ciclo Vital da Família diz-nos: 

"para alguns autores é ponto assente que sem o mínimo de aspectos psíquicos comuns subjacentes à relação entre dois seres esta não se poderá manter, uma vez que não haverá possibilidade de, verdadeiramente, compreender e ser compreendido. Se grande número de divórcios tem como justificação a incompatibilidade entre os parceiros na relação, não se pode concluir que, se os sujeitos são demasiados parecidos, a união está destinada ao fracasso."

Quando nos atraímos por alguém muito diferente daquilo somos, talvez devemos questionar a nossa própria auto-estima. Como é que nos podemos apaixonar por alguém semelhante a nós, se nós próprios não gostamos de nós? A propósito, o Woody Allen inicia o filme Annie Hall com a famosa expressão de Groucho Marx: 

"não quero pertencer a nenhum clube que aceite como membros pessoas como eu!"

As diferenças podem ser atraentes numa fase inicial e podem desafiar-nos, mas com o tempo tendem a desgastar a relação. Ao contrário, os gémeos psíquicos entendem-se, elevam-se e a relação flui sem tanto esforço.











O Poder Pessoal e a Arte de nos Relacionarmos com os Outros



Choca-me, zanga-me, dilacera-me a alma, dá-me cabo dos nervos e traz os termos mais obscenos à tona do meu léxico sentir a perda do poder pessoal de alguém, sobretudo face a uma situação de rejeição.

- O que é que eu fiz? Onde é que eu errei? Eu não mereço. Ninguém gosta de mim. Porquê que este padrão continua a repetir-se na minha vida? Porquê que só consigo atrair cafajestes e desclassificados? Porquê ela e não eu? 

É preciso resgatarmo-nos imediatamente de um discurso assim, carregado de culpa e soluçado na primeira pessoa. 

Porquê que insistimos em quem não nos faz cafuné, em quem desaparece sem se despedir e sem sequer agradecer o nosso colo, o nosso cuidado, o nosso abraço, a nossa entrega e a pessoa inteira que somos?

Não te percas de ti. Sê a tua prioridade. Toma uma atitude. Pára de internalizar o abandono, o medo. Resgata-te. Se o outro decidiu partir, respeita a partida. Quem sabe ele ou ela não será o vínculo para uma outra chegada. Quase sempre é.

 O relacionamento é uma arte, a arte de estar com o outro. Existem os génios e os burlões de sentimentos. Existem ainda os génios que não se aplicam e que caminham ao lado de grandes carreiras porque simplesmente não querem trabalhar. Parece-me que é por isso 
que por vezes nos sentimos burlados, mas até foi verdadeiro, sincero, sentido e profundo. 

Estou a lembrar-me do meu professor de piano que me disse um dia:

- Liliana, se quiseres mesmo tocar e caminhar para o ensino superior, tu consegues. Tens de trabalhar mais, muito mais, tens de tocar todos os dias...  A sensibilidade não chega, precisas de mais técnica, rapidez, precisão.

Uma semana depois, encontrámo-nos na sala de aula de sempre.

- Já decidiste? 
- Já.
- E então?
- Eu adoro o piano, mas não consigo comprometer-me. Ele exige cinco horas de prática diária, ou até mais. Tenho outras paixões. Gosto de representar, de escrever, gosto de psicologia. O piano precisa de mim todos os dias e exige que me feche numa sala durante horas e horas quando o que eu quero e preciso neste momento é de estar lá fora, de viver e de experimentar outros desafios. Resumindo, fico por aqui...

Quando alguém não quer estar mais connosco, isso não significa que fomos burlados e que foi tudo um engano ou uma mentira, que não somos merecedores de uma obra de valor. Significa apenas que não conseguimos comprometermo-nos com a arte de nos relacionarmos com o outro naquele momento. 

É tão bonito quando duas liberdades se encaixam. Imagina um concerto, imagina a partitura e o encaixe dos instrumentos... Convida para o teu concerto quem consiga primeiro aprender o seu instrumento e a sua melodia sozinho. Se essa pessoa não conseguir ou não tiver paciência, tu podes agradecer o adeus, pois não precisas de ninguém que não consiga acompanhar a tua melodia. 

E quanto a mim? Não valerá a pena perguntar se eu própria já aprendi a minha melodia? Se calhar ainda não. Se calhar ainda não estou nem segura e nem confiante e ainda tenho muitos compassos por resolver sozinha. É importante ser realista e menos emocional. O amor não funciona sozinho. Precisa de combustível e esse combustível compreende muitas variáveis: o estilo de vida, as famílias de origem, o trabalho, a liberdade emocional e até financeira de cada um, os objectivos de vida... Parece complicado, mas é mais simples do que parece. A simplicidade de ter uma atitude, amor próprio e desapego e de resistirmos à questão: porquê que a relação do vizinho resulta e a minha não? 

Se ao menos as paredes do vizinho falassem.... 



Um abraço, 

Lili




A metade da laranja e o testo da panela...



"Um dia vais encontrar um testo para a tua panela."
"Vais ver que vais encontrar a outra metade da tua laranja."

Parece-me que este é um erro comum na educação das crianças e que depois se perpetua nas conversas que vamos tendo pela vida fora: a mensagem de que anda por aí uma alma gémea perdida que nos completa. Existem sete biliões de almas no mundo e a nossa missão é acreditar que um dia encontraremos a outra metade da nossa laranja ou o testo da nossa panela. 

Em vez disso, que tal ensinar-lhes a arte de ser inteiros, independentes e felizes sozinhos? Um ser inteiro relaciona-se com outro ser inteiro. Ninguém completa ninguém, ninguém é a alma gêmea de ninguém. Que tal ensinar-lhes a arte da autossuficiência?

Vamos parar de procurar o testo da nossa panela, vamos parar de procurar a metade da nossa laranja e vamos, em vez disso, aprender a ser panelas e laranjas inteiras que se relacionam com outras panelas e com outras laranjas inteiras.

Li algures que a interdependência só funciona quando as pessoas envolvidas conseguem funcionar de forma independente. Acho que vai valer a pena pensar nisto, pela saúde no modo como nos relacionamos uns com os outros e acima de tudo pela nossa felicidade pessoal. 

......

Pela partilha de felicidades e não pela procura de uma só.

Abraço, 

Lili


fotos de Pedro Mendonça










© Chez Lili

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